AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK põe a fantasia a serviço de um elemento um bocado emocional: pais que saíram de cena por motivos diversos, e por isso mesmo dominam a vida interior de seus filhos, dão o mote à aventura. Nela, os gêmeos Jared e Simon e sua irmã mais velha, Mallory, se mudam para uma decrépita mansão vitoriana a fim de recomeçar a vida, após a separação de seus pais. A casa abandonada é uma herança de família: Ali morou o naturalista Arthur Spiderwick (David Strathairn), misteriosamente desaparecido oitenta anos antes. E dali a filha dele, Lucinda (Joan Plowright), foi despachada para um asilo psiquiátrico, por insistir demais na idéia de que Arthur ainda vive, mas não pode retornar porque seres fantásticos o ameaçam.
Com a rebeldia adolescente acentuada pela ausência paterna, Jared (o perspicaz Freddie Highmore que faz os gêmeos idênticos na aparência e opostos na personalidade) transforma a mudança em uma tortura para a mãe (Mary-Louise Parker). Não só a acusa de afastá-lo do pai, como inventa que há criaturas andando dentro das paredes. Depois vai mais longe, dizendo ter encontrado o livro secreto em que o naturalista fez suas anotações sobre tais criaturas – e jura que, se o livro sair do círculo mágico que protege a casa e cair nas mãos do ogro Mulgarath, todos ali serão destruídos. A questão é que, embora pareça estar apenas bolando novas maneiras de atormentar sua mãe, Jared está coberto de razão.
Entre a produção fantástica que se rearticulou a partir do sucesso dO SENHOR DOS ANÉIS, AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK é de longe o exemplar mais inteligente e o que com mais propriedade utiliza os recursos do gênero. Seus efeitos, caprichados e às vezes poéticos (como as fadas que mimetizam flores, usando as pétalas como saiotes), miram não no grandioso, mas na variedade mais doméstica, por assim dizer, da imaginação infantil.
É um filme que pertence ao campo das ficções infantis que jogam o tempo todo com o infinito da imaginação, quase sempre vinculado ao universo das crianças. Por meio de um olhar que enxerga e se assombra com seres e fabulações, em contraste com o dos adultos que, em seu pragmatismo, consideram invencionice, as crianças entram em universos imaginários, são capazes de vivê-los e de representá-los. No cinema, mais que isso, elas funcionam como os intermediários que tornam esses mundos visíveis.
Alguns temas são ricos em simbolismos, como a associação do ogro ameaçador à imagem do pai e a suspensão do tempo que permite à velha tia voltar a ser criança. São pequenos detalhes que influenciam no conjunto e torna o filme um trabalho que pode ser assistido com prazer tanto como puro entretenimento para a família como também por quem gosta de encontrar interpretações sob outras camadas de significados.
Nesse sentido, AS CRÔNICAS DE SPIDERWICK têm parentesco bem mais próximo com o excepcional O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo del Toro, do que com o restante da fantasia hollywoodiana. Não que seja tão radical nem tão pessimista quanto o colega mexicano: o desfecho inclui não apenas algumas das reconciliações de praxe, como também o inevitável gancho para que, assim como os livros que deram origem ao filme (publicados aqui pela editora Rocco), Spiderwick vire também no cinema uma série. Desta vez, pode-se dizer que há material para tanto.
Spoiler Rating: 79
LBC Rating: 65
Por Isabela Boscov (Revista Veja) & Cássio Starling Santos (Folha SP)

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