


“A verdade da minha vida é cá comigo, e não se metam nisso”.John Ford falou muito sobre sua vida, e mentiu bastante, mas não quando, querendo apresentar-se com uma frase de efeito, declarou ‘Eu me chamo John Ford. Faço westerns’. Nasceu em l895 com o nome de John Augustine Feeney. Diria mais tarde que não foi batizado John, mas Sean, nome irlandês, como ele gostaria de ter sido, e que muitas vezes disse que era.
Alguns biógrafos dizem que entre 1914 e 1917, ele participou de alguns filmes, como ator, e que chegou mesmo a dirigir, mas Ford sempre discordou disso. Tinha uma lembrança concreta do período: Em 1915 fez uma ponta em THE BIRTH OF A NATION (O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO), de Griffith, no papel de um dos cavaleiros da Ku Klux Klan. “Eu era o de óculos”, dizia (tinha problemas na vista desde a infância, e usava óculos de lentes bem grossas). Foi em 1917 que passou a dirigir, o que aconteceu por puro acaso.
Ford contaria: “Não havia maneira do diretor chegar, e eu esperava com os cowboys e o produtor. O senhor Bernstein me procurou: ‘Pelo amor de Deus, faça alguma coisa, diga que você é o diretor e comece! Todos esperavam impacientes, e então eu disse para um dos cowboys que trotasse com o cavalo ao longo da rua. Bernie acompanhava: ‘Isso mesmo, continua, faz mais alguma coisa’. Mandei então uns 50 cowboys cavalgarem por toda a cidade. Naquele tempo, uma queda de cavalo custava um dólar a mais no salário. Hoje uma queda sindical vale 250 dólares, mas naquela altura era um dólar que tocava a um cowboy que se deixasse cair do cavalo. Disse aos cowboys: ‘Será que podemos ter algumas quedas? Quando eu disparar o revólver, você, você e você caem, ok? Vamos recomeçar’. Foi então que disparei e os 50 cowboys atiraram-se dos cavalos. Os convidados acharam a coisa formidável. Bernie me disse: ‘O que mais você sabe fazer?”
“Quanto é que vale o nosso cenário da cidadezinha?”, perguntei Ford. Valia 215 dólares. Imediatamente Ford mandou vir alguns galões de gasolina, espalhou por todo lado e tacou fogo no cenário, enquanto os cowboys percorriam as ruas disparando em todas as direções. Um mês depois, quando precisaram de alguém para dirigir Harry Carey, o senhor Laemmle disse: ‘E por que não Jack Ford? É um bom diretor e sabe se impor pelo grito “. E foi desse modo que tudo começou.
Harry Carey, quase vinte anos mais velho que Ford, começou no cinema em 1909 e fez centenas de filmes nos anos 10. Em 1917 foi escolhido pela Universal para disputar com Tom Mix, Williams S. Hart e Buck Jones a preferência de um público enorme vidrado em westerns. Jack Ford fez 26 filmes com ele. Em 1919 uma crítica citava os dois como melhor ator e melhor diretor de westerns do mundo.
Em 1926, Ford trocou o Jack pelo John. Já tinha filmes importantes então, e muitos consideram que seu primeiro grande filme foi feito em 1923, THE COVERED WAGON, que custou 280 mil dólares, muito dinheiro na época, e que rendeu três milhões. Em 1935, aos 40 anos, fez THE INFORMER (O DELATOR), seu primeiro Oscar. Foi também em 1935 que ficou definitivamente cego num dos olhos, passando a usar o tapa-olho. Brincou muito com isso, dizia imitar o Almirante Nelson e divertia-se colocando o tapa-olho na vista boa, ou usando o binóculo apenas no olho cego. “Seu eu decidir me tornar um bandido, precisarei apenas de meia máscara”, repetia.
Em 1939 fez STAGECOACH (NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS), e com ele mudou o rumo dos westerns. Em 1957 fez THE SEARCHERS (RASTROS DE ÓDIO), e em 1962 THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE (O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA).
Há sempre um punhado de bons críticos que consideram RASTROS DE ÓDIO o melhor do gênero em todos os tempos. Em TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, Ford passou a filmagem toda provocando John Wayne e reclamando dele. Quando o roteiro foi apresentado, o produtor, que já não gostava da idéia de investir em um western, nem queria ouvir falar em Wayne, um ator de filmes B pouco conhecido. Ele preferia Gary Cooper. Ford tanto insistiu que ganhou, mas depois não perdia a oportunidade de jogar na cara de Wayne ‘Eu devia ter ficado com Cooper’. Era um sujeito temperamental e todos o temiam. Os atores, que ele não parava de importunar (dizem que escolhia uma vítima por dia, e então que Deus tivesse piedade dela).
“Gosto do western, da época do western. (…) O lado mais simpático do western, penso, é que todos podem se identificar com os cowboys. O herói do western é talvez demasiado grande, sobre-humano, mas não mais do que os outros heróis da História. (…) Há pecado somente quando fazemos heróis a partir de personagens fundamentalmente repugnantes. Billy the Kid, por exemplo. Era um bandido brutal e vicioso. Não penso ter conscientemente vestido os meus heróis de branco e os meus maus de negro. Recordo-me de que uma vez, numa sala de projeções, assistia a versão final de um western e uma pessoa que lá estava, pouco importa quem, dizia-me – e ainda era o princípio do filme – que já sabia quem era o mau. ‘É o rapaz lá do fundo, vestido de negro, num cavalo negro’. Fiquei furioso e parei a projeção, mandei o sujeito passear e mudei o plano. Não estava certo. É preciso ser justo na vida”.
Quando perguntaram a Orson Welles quais os cineastas americanos que mais o impressionaram, ele respondeu: ‘Os velhos mestres. Isto é, John Ford, John Ford e John Ford’.
Fonte: O Estado de São Paulo – 01/12/2003

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