Duke Morrison viu cowboys em ação em incontáveis matinês. No verão de 1926, Tom Mix o contratou como quarto assistente de produção na Fox, com um salário de 35 dólares por semana. Quarto assistente de produção queria dizer faz-tudo. E como tal, no primeiro filme que participou, MOTHER MACHREE, de John Ford aos 31 anos, ele era encarregado de levar para dentro e fora do set um punhado de gansos.
Depois, Duke participou de vários filmes de Ford, muitos como dublê, e alguns em papéis tão variados que chegou a cantar em um musical, quando, em 1930, Raul Walsh perguntou a John Ford se poderia indicar-lhe alguém para o papel principal de THE BIG TRAIL (A GRANDE JORNADA). Ford disse-lhe que Duke Morrison poderia servir. Walsh acabara de ler um livro sobre o general Anthony Wayne (1745 - 1796), figura de destaque na Revolução Americana. Ele ouviu o nome Marion Michael Morrison, olhou para o Duke e disse ‘Não, você tem cara de Wayne’. Acrescentou o John e deu-se por satisfeito. Era um bom nome para um herói do western, pensou.
THE BIG TRAIL foi um fracasso, e Wayne passou nove anos fazendo filmes B para vários estúdios. Enquanto isso John Ford procurava um produtor que bancasse um projeto que lhe veio à cabeça quando leu uma história curta de Ernest Haycox, STAGECOACH (NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS). A United Artists deu o sinal verde em 1939.
“Trabalhei para John Ford durante anos como faz-tudo, dublê e fiz algumas pontas. Desenvolvi por ele a admiração que se tem por um herói, e que ainda existe. Mas, quando me vi limitado a westerns de três dias e meio, ele passava por mim sem me falar. Isso aconteceu durante três anos: ele simplesmente nem olhava para mim. Então um dia eu estava em um bar quando a filha dele entrou e disse ‘Papai quer você no iate dele’. Eu não sabia o que fazer. Mais tarde Mary, a mulher dele, apareceu e disse ‘Ele quer você’. Fui vê-lo, e ele disse que me queria em STAGECOACH”.
Foi o filme que o levou ao estrelato, e fez seu salário saltar de 200 dólares semanais para 1.500. Pouco depois os EUA entrariam na Segunda Guerra e Wayne também, fazendo filmes de combate bem de acordo com seus sentimentos altamente patrióticos. Fez novas obras-primas com Ford, como FORT APACHE (FORTE APACHE), em 48, SHE WORE A YELLOW RIBBON (LEGIÃO INVENCÍVEL), em 49, e RIO GRANDE (RIO GRANDE), em 50. Nesse período, em 49, ele fez também RED RIVER (RIO VERMELHO), dirigido por Howard Hawks.
“Stagecoach me fez um astro e serei grato a Ford para sempre. Mas não penso que ele tivesse realmente algum respeito por mim como ator até que fiz RED RIVER com Hawks, dez anos depois. Mesmo assim nunca tive muita certeza”.
Em 1956, também com John Ford, Wayne fez THE SEARCHERS (RASTROS DE ÓDIO). Foi um dos seus favoritos, tanto que deu a um dos filhos o nome Ethan, o mesmo do personagem que interpreta, Ethan Edwards.
Em 1969 ele seria o xerife bêbado Rooster Cogburn em TRUE GRIT (BRAVURA INDÔMITA), de Henry Hathaway, papel que lhe deu o único Oscar da carreira e o colocou de volta no primeiro posto das bilheterias. Naquela época ele já lutava contra o câncer e havia passado por uma operação do pulmão em l964.
Em 1976 John Wayne fez seu último filme: THE SHOOTIST (O ÚLTIMO PISTOLEIRO), com Don Siegel. Na sua despedida das telas ele não poderia ter tido um papel mais apropriado: o de um maduro e famoso pistoleiro, um tanto deslocado em uma época em que o velho Oeste já não era tão velho assim, que ouve do médico o diagnóstico de câncer.
- Se eu tivesse a sua coragem - diz-lhe o médico depois de descrever o que o esperava - não teria uma morte assim.
Não. John Bernard Books, o personagem de Wayne em THE SHOOTIST, não teria uma morte assim. Ele compra uma lápide para seu túmulo, desafia três desafetos e marca com eles um encontro no saloon da cidade. Chegando ao saloon, vai ao balcão e faz o pedido ao barman: ‘Hoje é meu aniversário. Me dê o melhor na casa’. Ele bebe o uísque de uma talagada, e vira-se para enfrentar os três.
Fonte: O Estado de São Paulo - 01/12/2003
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