Quem já ouviu falar de Carlos Reygadas, mesmo que não tenha visto JAPÃO (2001) ou BATALHA DO CÉU (2005), deve ter ouvido uma certa exasperação. Afinal, qual o crime desse cineasta mexicano?

Estilista incontinente, o ex-advogado que um dia decidiu que a sua paixão por Tarkovski e pelo cinema o fariam abandonar o gabinete parece estar disposto a sacrificar tudo por uma provocação, por um efeito choque - O sexo, como aquela seqüência com sexo oral que abria BATALHA DO CÉU ou com aquela seqüência em que o corpo de uma idosa se disponibilizava a um suicida em JAPÃO.

Genericamente, a questão com Reygadas, 37 anos, é a forma como nada parece contê-lo perante os corpos dos seus atores-que-não-são-atores, objetivando-os com a violência de um vampiro.

Mas uma coisa estranha aconteceu, há um ano, na premiere de seu recente filme, LUZ MISTERIOSA, no Festival de Cannes: Ninguém se escandalizara com sexo, nem com zôo cruel, e em vez disso fascinavam-se com um nascer do Sol e um pôr do Sol. É assim que abre e fecha LUZ MISTERIOSA: Sem truques digitais… São as estrelas da noite e é a estrela do dia que aparecerem como fábula Disney; É o som da terra amanhecendo. É o som do crepúsculo… E é de embasbacar.

Por isso, a primeira coisa a perguntar a Carlos Reygadas, que concedeu a SPOILER uma entrevista pelo telefone, foi: Alguma coisa mudou o provocador? Tinha resposta pronta, como advogado que foi.

“Não, é uma continuidade. É a mesma pessoa que filma. Nos meus filmes há sempre amor, violência e luz. O que acontece é que, às vezes, as coisas estão mais enterradas e é preciso fazer fendas para a luz passar. Dessa vez, não quis falar de corpos, das pessoas como matéria. Todas as pessoas são interessantes, umas são mais fáceis de “agarrar” do que outras… Temos é que olhar mais profundamente. Dessa vez, interessei-me por um grupo que habita um lugar em que tudo parece mais claro”.

Tornou-se crente, é isso? Ele assegura que já o era antes. “Não é uma questão de fé, é uma questão de sentimento. Sinto que uma outra dimensão existe. E sinto isso nas coisas. Nos outros filmes isso também estava presente, mas de forma menos incisiva. Nesse filme talvez esteja lá de forma mais evidente… A luz, as orações. É só mais difícil de ver a luz no outros filmes; mas ela está lá.”

Tela em Branco

Este grupo, de que fala Reygadas, que lhe permitiu encontrar a luz de forma mais paradigmática, é uma comunidade religiosa de Menonitas que habita na região de Chihuahua, norte do México. São mais radicais na forma de rejeitar o progresso e vivem de acordo com os “standards” do século XVI, quando a doutrina protestante foi codificada pelo holandês Menno Simons (1496-1561). Do norte da Europa iniciariam um périplo de séculos que os levou até à Rússia e ao continente americano. Alguns são mais moderados, aceitando o uso de carros e da medicina tradicional (não a Internet, nem o telefone), como os Menonitas que Reygadas rondou durante três anos e meio para ganhar confiança. O que não era evidente: a reprodução da imagem - pintura, fotografia, cinema - é proibida, por exemplo. Mas o diretor explica que no Protestantismo a decisão individual é mais importante que a comunidade, e tratou de “encontrar pessoas certas” que, entre o trabalho, se dispuseram a incluir no seu cotidiano, “de forma muito orgânica”, a filmagem da estória de Johan, casado, pai de família, que, em contradição com a lei de Deus e dos homens, se apaixona por outra mulher.

Foi tão natural, conta - apesar da estória de adultério - que o seu “ator principal”, Cornelio Wall Fehr, “até ficou com vontade de ser ator em Hollywood, se fosse possível”.

“Na verdade, os Menonitas em si não me interessam”, diz Reygadas - coisa que não nos surpreende. “Interessa-me algumas características deles, o fato de falarem uma língua neutra [um dialeto alemão], o fato de não terem classes sociais…”, o fato, enfim, de poderem constituir uma tela em branco. Como se Reygadas tivesse encontrado nessa comunidade - ele que odeia atores, ele que detesta o teatro e a construção de personagens - um modelo de abstração que tanto procurava e pelo qual foi até a violentação nos outros filmes.

“Para mim os atores são corpos que veiculam idéias. Por isso, em BATALHA DO CÉU me interessava apenas a exterioridade. Em LUZ MISTERIOSA houve uma pequena alteração do método. Não deixei as pessoas apenas “serem”, “estarem”, quis que elas também “sentissem”. Assim tornaram-se indivíduos, deixaram de ser apenas modelos. Ou seja, enquanto nos meus outros filmes os corpos serviam para exprimir idéias exteriores, filosóficas ou sociais, este é um filme sobre sentimentos. O sentimento de estar confuso, o sofrimento… Quis fazer um filme sobre sentimentos.”

A estréia de LUZ MISTERIOSA ocorre nos mercados internacionais (No Brasil, por enquanto é uma incógnita). Jornais e Revistas o classificam como um milagre. Existe um filme de Carlos Reygadas que, afinal, nos desarma por algo mais do que apenas vampirismo (se bem que, em relação ao vampirismo, Carlos seja claro: “Não se pode ser moralista, deve-se aceitar que o que quer que façam tem sempre conseqüências. Os limites? A franqueza e honestidade com quem se trabalha. Trabalho com pessoas adultas e inteligentes que sabem o que estão fazendo. É uma hipocrisia colocar as coisas assim:” É um conjunto de idiotas manipulados por um diretor”".

Mas filma-se mesmo um milagre nas cenas finais de LUZ MISTERIOSA. Um filme “em que tudo está vivo”, sim. Talvez seja isso que gostaríamos de descobrir num cineasta tão inclinado pelas naturezas mortas.

This entry was posted on Wednesday, April 2nd, 2008 at 14:14.
Categories: ARTIGOS.

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