my-blueberry-nights-2007.JPGA estréia de Wong Kar-wai em um filme de língua inglesa era um movimento inevitável. Cedo ou tarde, o mais festejado diretor chinês faria seu “début” nos EUA, terra do cinema. A única dúvida era como esse movimento se daria. A resposta está em UM BEIJO ROUBADO, cuja premiere mundial inaugurou a 60ª edição do Festival de Cannes.

Trata-se, enfim, de uma típica produção globalizada, que mais parece ter sido feita sob encomenda para Cannes: O financiamento é europeu (Studio Canal), o diretor vem da Ásia - região mais querida dos curadores de festivais nos últimos anos- e o elenco estrelado garante o glamour necessário para uma noite de abertura: Norah Jones, Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman e David Strathairn.

Apesar de lidar com elementos tão estrangeiros à sua obra, Kar-wai fez uma nova variação em torno dos temas de AMOR À FLOR DA PELE e 2046, mantendo-se radicalmente fiel à sua estética. Ou seja, fez um filme radicalmente autoral, sem muitas concessões. À medida que UM BEIJO ROUBADO se desenrola, vemos como o diretor fez os elementos estranhos se adaptarem ao seu universo, e não o contrário.

Nova York, por exemplo, torna-se estranhamente parecida com Hong Kong. O tipo físico das três atrizes escolhidas lembra as atrizes asiáticas favoritas do diretor (como Maggie Cheung). Até mesmo a trilha sonora original, assinada por Ry Cooder, é ofuscada pelo tema de “Amor…”, que reaparece com um arranjo americanizado, lembrando um blues.

UM BEIJO ROUBADO nasceu do singular desejo do autor de trabalhar com Norah Jones. Ele recuperou uma história que já havia transformado em curta, e usou como base para esse novo longa. Essa história deu origem a um argumento, escrito pelo próprio cineasta, em torno de uma jovem (Jones) que supera a perda de um amor ao se deparar com a dor dos outros. Ela se encontra, primeiro, com o dono de um café (Law) abandonado pela namorada; depois, com um policial alcóolatra (Strathairn) que não se conforma com a separação; e, por fim, com uma jovem viciada em jogo (Portman), que perde o pai.

O argumento foi transformado em roteiro pelo escritor Lawrence Block e usado como base nas filmagens, marcadas pela mesma liberdade de seus filmes chineses. “O roteiro foi apenas um guia, os atores puderam improvisar e trazer muito de si para os personagens”, disse Kar-wai. “Nunca havia trabalhado com um diretor que valorizasse tanto a fisicalidade dos personagens”, contou Law.

O resultado é um filme de pequenas ambições. UM BEIJO ROUBADO é singular. Um filme que traz um grande frescor pela forma com que as paisagens americanas são retratadas e que se recusa a impor o choque em nome de um fácil sucesso internacional

Spoiler Rating: 80
LBC Rating: 75

Por Luis Carlos Merten (Estado de São Paulo) & Pedro Butcher (Folha de São Paulo)

This entry was posted on Thursday, April 3rd, 2008 at 15:26.
Categories: FILMES.

3 Comments, Comment or Ping

  1. Assisti a dois filmes do Wong Kar Wai (”Amores Expressos” e “2046″) e estou bem curiosa para assistir a este “Beijos Roubados”. O interessante é que o filme estreará, nos EUA e no Brasil, quase que simultaneamente.

  2. A recepção de “Um Beijo Roubado” pode não ter sido tão boa quanto se imaginava (em relação a Cannes, especialmente), mas sem dúvida é um dos filmes que mais aguardo entre as próximas estréias.

  3. Sabe quando o mundo está cada vez mais estreito, quando não resta quase nada mais de absoluto e espiritual para se apegar, quando as duas últimas potências de fé, amor e Deus, estão desaparecendo? Não sabe? Então assista “Um Beijo Roubado”, voce vai se sentir melhor, mesmo sem saber porquê.
    Tome seu beijo de volta.

Reply to “Um Beijo Roubado”


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