in-this-world-2002.JPGO título define a geografia: Se estamos NESSE MUNDO é porque existe um outro. Ele não é um mundo de aliens. A referência que faz o filme de Michael Winterbottom é a este além tão cultivado por cristãos e muçulmanos.

Como o filme trata de imigrantes afegãos, NESSE MUNDO em primeiro lugar sugere um questionamento político, já que o que se promete com freqüência aos homens-bomba muçulmanos, em troca de seu martírio, é este outro mundo.

No entanto, NESSE MUNDO opta por escantear inteiramente o outro mundo e fixar-se obsessivamente neste aqui, dos viventes. É aqui que se desenvolve a odisséia de Enayatullah e seu jovem parceiro Jamal em busca de seu destino, Londres, desde que deixam o Paquistão (onde são refugiados). A cada seqüência os viajantes deparam-se com um novo problema: guardas de aduana, ignorância de outra língua, necessidade de aprendê-la, necessidade de confiar em quem nunca viram e cuja honestidade desconhecem…

O filme procede, assim, por um sistema de compressão e distensão: no início da seqüência coloca-se um problema: eles são levados em um caminhão para outro país. Será que serão detidos pelos guardas da fronteira? Ao serem, que solução será dada?

Invariavelmente, encontra-se uma solução ao fim do segmento (não necessariamente uma solução boa para os personagens, entenda-se), a tensão é aliviada de um modo ou de outro, e uma aventura nova começa.

O discurso de Winterbottom é bem diferente do desenvolvido por Amos Gitai em um filme com tema análogo, A TERRA PROMETIDA. Gitai trata ali de tráfico de mulheres e coloca nós espectadores na mesma condição alienada (e indefesa) das garotas vítimas desse tipo de comércio.

Winterbottom, ao contrário, fixa Enayatullah e Jamal (sobretudo Jamal) como seres capazes de controlar seus atos e responsabilizar-se por eles. Jamal pertence a este mundo, dispõe-se a enfrentar os seus titânicos desafios e triunfar sobre eles, sobrevivendo.

Por trás do filme existe um drama bem maior: a enorme massa mundial de imigrantes ilegais (problema que nós, brasileiros, conhecemos bem) e as condições subumanas a que são constrangidos. Isso é a caução de que se serve este filme de ficção.

Isso também é o que garante, tematicamente, o sucesso do filme. Do ponto de vista cinematográfico, Winterbottom é feliz na medida em que não abandona seu ponto de vista humanista (a câmera à altura do homem e homens à altura dos problemas que lhes são colocados) e em que parece adaptar para a vida civil o preceito de Samuel Fuller segundo o qual “na guerra, o único heroísmo é sobreviver”.

Na imigração ilegal é o mesmo: triunfar sobre a morte e chegar ao seu destino é o que importa.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: ~

Por Inácio Araujo (Folha SP) & Caryn James (Independent)

This entry was posted on Thursday, April 3rd, 2008 at 13:20.
Categories: FILMES.

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