Jude Law e Norah Jones estão muito íntimos. Exageradamente íntimos para ser preciso…Afinal se beijaram 150 vezes em três dias de filmagem.
A ocasião para essa overdose de paixão foi as filmagens de UM BEIJO ROUBADO, a primeira incursão em inglês de Wong Kar-wai, o dissidente diretor de Hong Kong que se volta ao símbolo cosmopolitano da América. Essa noite em particular, estava espremido num pequeno café da Grand Street em Nova York, preparando-se para outra tomada da conhecida cena do beijo.
É hora de fechar… Norah Jones, última cliente, debruçada no balcão, de olhos fechados, com os lábios manchados de creme de amoras, num júbilo prazer gastronômico…Jude Law a observa atentamente, logo atrás do balcão, inclina-se lentamente e ligeiramente lhe rouba um beijo… Quando se levanta, os lábios de Norah estão limpos.
A cena dura menos de um minuto, mas o número de tomadas que Wong e seu fotógrafo, Darius Khondji, planejaram - 15 ângulos diferentes, sugerem uma cena chave no filme. O beijo é disparado em diferentes velocidades e numa incrível multiplicidade de visões: em slow-motion, na visão dele, dela, através das janelas, com objetos em primeiro plano…
“Eu nunca trabalhei com alguém que colocasse tanta ênfase num único momento”, afirma Law entre um beijo e outro.
A consagração de um flerte como um momento de fuga é uma das especialidades de Wong. Talvez, mais do que todos os diretores, desde Alain Resnais, seu grande assunto é o tempo - ou o tempo mais especificamente perdido. Seus filmes cheios de entusiasmo, assombrados por ruminações narrativas envoltas de nostalgia, transpiram no reino da memória. Pessoas e lugares capturados pela câmera.
Wong, 48, é afiado em descrever UM BEIJO ROUBADO, um road-movie com locações em Nova York, Memphis, Las Vegas e Ely, e com um elenco invejável que incluem também Natalie Portman, Rachel Weisz e David Strathairn. Seu último filme, 2046, foi planejado como ficção cientifica futurista, mas demonstrou um certo fetiche pelo passado também, sucumbindo ao delírio hothouse da década de 60 em Hong Kong. Como um caleidoscópio, 2046, demonstra um trabalho maduro de Wong.
O processo de Wong de filmar é notório. Ele, freqüentemente, mergulha na produção com pouco mais de um esboço. Seu método exploratório resulta numa forma e intensidade originais, típicas de Robert Altman.
Nos meados da década de 90, com o retorno de Hong Kong ao governo chinês, Wong dirigiu três filmes - CHUNGKING EXPRESS, FALLEN ANGELS E HAPPY TOGETHER - numa rápida sucessão. Feitos a toque de caixa, eles sugerem um tom imediatista. Os filmes que se seguiram, AMOR A FLOR DA PELE e 2046, são fantasias de época enraizadas na melancolia do transiente. Cada filme fazendo um exame da eternidade prestes a terminar. “Em cinco anos você pode fazer cinco filmes, mas eu gastei cinco anos para fazem um”, disse Wong quando consultado sobre 2046.
UM BEIJO ROUBADO - não obstante os repetidos beijos - teve filmagens em ritmo acelerado. Para suas cenas, Wong filmou em apenas sete semanas. “Nós pensamos num filme de férias, espontâneo e contemporâneo”, disse. O projeto “aconteceu durante a noite”.Estava em Nova York pesquisando locações para um outro filme, THE LADY FROM SHANGHAI, um drama de época com Nicole Kidman e filmagens na Rússia, Shanghai e Nova York. Quando se decidiu por um filme menor, desconexo, escalando a novata Norah Jones, vencedora do Grammy, para estrear nas telonas. “Ela é natural”, disse, adicionando que a instruiu a não fazer qualquer curso de interpretação.
Como se vê, UM BEIJO ROUBADO esta focado nas reações de Norah nos diferentes ambientes e situações. “Em Memphis há algo muito clássico sobre sua presença”, disse. “Em Nova York é mais contemporâneo”.
Norah Jones parecia menos confiável que seu diretor. “Eu não tenho nenhuma idéia do que ele viu em mim”, ela. “Quando ele me contatou, pensei que queria alguma música para seus filmes. É estranho, porque sempre me senti desconfortável em cada videoclipe que fiz”.
William Chang, que foi editor, diretor de arte e figurinista de Wong, desde o começo, e assim também o é em UM BEIJO ROUBADO, mas pela primeira vez em 15 anos, em parceria com o fotografo australiano Christopher Doyle, inventaram um ambiente estenográfico para um clima de alienação romântica, mistura do movimento frenético de néons borrados e a contemplação do slow-motion. Mas a agenda cheia de Doyle e o método randômico de Wong tornaram o projeto incompatível. No lugar de Doyle, entrou o francês Darius Khondji, conhecido pela atmosfera dark de SE7EN de David Fincher.
Há um lado pragmático no método de Wong. Episódios inteiros são planejados, roteirizados e até mesmo filmados, somente para evaporar. Mas então, idéias recicladas são utilizadas da mesma forma como foram abandonadas. Um seqüência de CHUNGKING EXPRESS foi reaproveitada em FALLEN ANGELS, enquanto 2046 floresceu de um esboço de DAYS OF BEING WILD, seu filme de estréia.
De forma similar, UM BEIJO ROUBADO nasceu de um conjunto de esboços intitulado “Three Stories About Food”. Um capítulo tornou-se AMOR A FLOR DA PELE (2000). Outro, a base para BEIJOS ROUBADOS, foi filmado como um curta com Tony Leung e Maggie Cheung, selecionado para o Festival de Cannes em 2001.
Naquele curta, chamado IN THE MOOD FOR LOVE 2001, continha o plano do beijo. Então Wong expandiu o cenário, transformou-o num road-movie, em parte pelo custo das locações de Nova York. E assim planejou um desajuste romântico para Norah Jones repensar sua vida numa peregrinação pela América em busca do verdadeiro amor.
A etapa seguinte foi traçar sua rota e encontrar ao menos dois “pit-stops”. Optaram preferivelmente por Memphis, onde Norah encontraria o infeliz casal formado por Strathairn e Weisz. E Ely, onde ocorre o episódio de Natalie Portman.
Wong é um excelente diretor de atores, sempre customizando seus papéis para servi-los. Isto está evidente no personagem de Jude Law, proprietário do café, que começa como um tipo contido, mas cresce exultante quando o carisma e a energia do ator se tornam evidentes. “Eu tive que lhe pedir para se conter no começo”, disse Wong.
Mais do que um mês de filmagens, apesar do ritmo frenético e da incerteza permanente, a atmosfera foi relativamente tranqüila. “Ele transmite uma calma incrível”, afirma Jude sobre Wong.
Mesmo assim, há alguns aspectos básicos da produção neste país que funcionam contra minha espontaneidade. Em Hong.Kong “nós fazemos filmes como um negócio de família”, disse Wong. “Aqui tudo tem que ser completamente específico. Eu tenho que explicar aos investidores que mesmo que eu respeite as regras, há determinadas coisas que eu quero manter da minha maneira”.
Como Jude Law o expõe, “ele está aberto a tudo, mas sabe o que quer”. E como pode BEIJOS ROUBADOS terminar? “Eu penso que haverá um segundo beijo” disse. “Mas, eu não sei onde…”
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