Atriz de O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? e A MALVADA não viveu para ver o YouTube, mas o YouTube a vê. E a torna acessível, como um dos maiores mitos do cinema

Bette Davis é um mito. Não só um mito do cinema, mas uma diva cuja imagem se constrói, ainda hoje, sobre mitos. Era agressiva, dominadora, irascível e uma prima-donna do overacting. Mas nunca se brigou com Joan Crawford nas filmagens O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962). Ela desmente, Joan Crawford também, tudo em vídeo no YouTube. A entrevista que Bette Davis nunca deu ao YouTube, mas que está lá, à disposição de qualquer ciberespectador em registro corta-e-cola.

Nasceu há cem anos, viveu 81, fez teatro, cinema e TV. Nas décadas de 1970 e 1980, tinha cada vez menos cinema memorável, mas continuou viva através da televisão. Telefilmes, séries e entrevistas, muitas, nos talk-shows de Johnny Carson, Dick Cavett ou David Letterman. “A minha sorte de ser conhecida pelos jovens hoje é a televisão late-night”, confirma Davis em 1971, no programa do norte-americano Dick Cavett.

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?, de Robert Aldrich, é um dos filmes chave de Bette Davis, apesar dos críticos realçarem o seu trabalho 30 anos antes. Nessa época, “ela era tão eletrizante como Marlon Brando foi nos anos 50: volátil, sexy, desafiadora”, comenta o crítico do New York Times, Terrence Rafferty.

Mas, em 1962, o que aconteceu a Bette e Joan em Baby Jane? A lenda reza que o ódio entre as atrizes destilou para as personagens. O diretor Robert Aldrich disse numa biografia de Joan Crawford: “É apropriado dizer que elas realmente se detestavam, mas comportavam-se de forma absolutamente perfeita”.

Afinal, Bette, como era essa relação? “Era totalmente profissional e normal. Na verdade, um dia sugerimos, porque [os jornais] rezavam por uma grande luta, tinham muitas colunas [de mexericos] para escrever, que devíamos escrever numa parede: as nossas desculpas, nos dávamos bem. Ela é uma mulher muito profissional”, remata, numa entrevista via YouTube, dada à britânica TV-AM, na década de 1980.

No mesmo pequeno ecrã, numa entrevista nos 60s, Joan Crawford confirma: “Ela é uma atriz fascinante. Nunca tive tempo de ser amiga dela, porque só fizemos um filme”.

Queda de um mito? Talvez, embora o próprio certe oficial de Bette Davis recorde que a atriz mandou instalar uma máquina de Coca-Cola no cenário de Baby Jane para irritar Crawford, viúva do dono da Pepsi. Como vingança, Crawford poria pesos nos bolsos antes das cenas em que Davis tinha de a arrastar pelo chão. Levanta-se outro mito, já que o primeiro cai em dúvida. Bette Davis era temível. Este está confirmado. Olivia de Havilland filmou pela primeira vez com ela em IT”S LOVE I”M AFTER (1937) e Olivia recorda: “A primeira vez que vi Bette Davis, ela assustou-me até à medula. Tivemos de fazer três filmes juntas para que ela se afeiçoasse a mim”.

Davis, de luvas pretas, não se lembra assim da história: “Sinto que sempre conheci e amei a Olivia”; “Não é verdade”, frisa De Havilland. Chocam na visão do passado, mas também fisicamente. O encontro é promovido pelo programa “This is Your Life” (1971). Olivia de Havilland entra para surpreender Davis. Olivia, emotiva, lança-se para Bette, envolve-a com os braços e Davis permanece rígida, em desconforto puro. Deixa-se cair no sofá, recuando face à vaga de afeto.

Bette Davis é também mitificada pelo seu olhar – sim, há aquela música de Kim Carnes, Bette Davis Eyes – e pela sua dicção seletiva, audível no YouTube. Como quando responde a uma nossa pergunta imaginária – qual foi o diretor preferido? De luvas pretas, lenço branco na mão, consumida pelo câncer, mas cheia do voluntarismo de marca, prende uma audiência inteira. Recorda Hal Wallis, produtor da Warner Brothers. “A coisa mais fantástica que Hal Wallis me deu foi um diretor chamado William Wyler”, com quem teve um romance. “Wyler deu-me uma boa estrela comercial. Ele certificou-se que eu fazia dinheiro com JEZEBEL”, que lhe deu seu segundo Oscar.

E como era sua relação com os roteiristas? Na mesma sessão do American Film Institute (1987), aponta para a platéia: “[Julius] Epstein, você não gostava de mim, no [Mr.] Skeffington [1944]“, resmungava ao roteirista, também autor de CASABLANCA. “Ah, Ah, Ah”, grita e ri Bette Davis, como que a confirmar uma acusação. “Mas era um maravilhoso roteirista”, remata.

Parte importante da carreira construiu na Warner. Chegou a ser chamada “o quarto irmão Warner” pela sua importância no estúdio nos anos 30. Mas a relação terminou mal. Fez alguns filmes sem sucesso por obrigação e decidiu filmar na Inglaterra. Foi processada pela Warner. Sentiu-se injustiçada? “Do lado deles, não havia qualquer afeto. Passei 18 anos na Warner, nunca recebi uma carta de despedida e acabei num cenário com um técnico de som e um produtor a beber copos até de madrugada. E foi assim que deixei a Warner”, revela-nos numa viagem YouTube a 1971.

No YouTube, ficam as suas imagens com o eterno cigarro entre os dedos e o som da sua língua franca. A atriz britânica Joan Collins, que contracenou com Davis, sumariza no título de um artigo de tributo no Independent: “Bette Davis ensinou-me a ser uma cabra”.

Por Joana Amaral Cardoso (Publico PT)

This entry was posted on Monday, April 7th, 2008 at 11:36 am.
Categories: ARTIGOS.

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  1. Bette Davis, para mim, é a maior atriz de todos os tempos. Meu vídeo favorito dela no You Tube é um tributo em que a música é uma que ela canta em “O que teria acontecido com Baby Jane?” e o vídeo contém fotos de diversas fases da carreira dela.

Reply to “O que o YouTube nos diz sobre Bette Davis”


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