Há um mês, o espanhol Javier Bardem foi contemplado com seu primeiro Oscar pelo papel do vilão Anton Chigurh. Ele dividiu o prêmio com os diretores do filme, os irmãos Ethan e Joel Coen, que o ajudaram a entender melhor o personagem. Nesta entrevista, Javier Bardem conta como foi trabalhar com eles, que considera “os verdadeiros diretores americanos”. Bardem também fala sobre o famoso – e estranho – corte de cabelo usado no longa-metragem e comenta as dificuldades de ser estrangeiro em Hollywood.


SPOILER: Você chamou os irmãos Coen de “os verdadeiros diretores americanos”. Por quê?
Javier Bardem: Porque eles sempre apresentam os piores aspectos da sociedade americana, mostrando pessoas levadas ao extremo por seus erros. São tão inteligentes que conseguem olhar além e descrever isso.

SPOILER: Eles queriam trabalhar com você fazia tempo. Aí apareceu a oportunidade de interpretar um vilão forasteiro. Como foi a caracterização de Anton Chigurh?
Bardem: Ele não é deste mundo, pelo menos não do mundo do Texas, onde a ação do filme se desenrola. Eu me esforcei para suprimir ao máximo meu sotaque. Por um lado, para não parecer exótico. Por outro, para não parecer um mexicano, pois eles também aparecem no filme. Deu bastante trabalho.

SPOILER: – Você tem aparecido mais vezes em Hollywood. Quanto um sotaque atrapalha uma carreira por lá?
Bardem: Quem não foi criado como bilíngüe tem muita dificuldade em eliminar um sotaque. A gente fica quase sempre tolhido, porque, na língua estrangeira, você é sempre um outro. Ao mesmo tempo, eu curto isso, pois cria certa distância em relação ao papel e não se é inteiramente engolido por ele. Isso possibilita interpretar de forma exata o texto. Na língua materna, uma simples frase de um diálogo pode deflagrar um mar de imagens e lembranças em mim, e fica muito difícil eu evitar ser carregado para longe por ele.

SPOILER: O traço mais marcante de seu personagem é o penteado. De quem foi a idéia?
Bardem: Foi de Paul Leblanc, o chefe do departamento dos cabeleireiros. Meu cabelo estava bastante comprido quando cheguei. Ele começou a cortar um pouco, e, de repente, percebi que os Coens desataram a rir. Pedi um espelho e me dei conta de que este era o corte certo. Agora tínhamos um personagem. Isso foi de grande ajuda.

SPOILER: – Quer dizer que não foi planejado?
Bardem: Não, o Paul simplesmente estava experimentando. Bom, ele conhece os anos 70, quando se passa o filme. Naquele tempo se usava esse penteado (risos). Depois, ainda nos aprofundamos na interpretação: o cabelo também representava a matemática, que é o modo como Chigurh procede. Mas o que mais valeu foi a graça que achamos no corte do cabelo.

SPOILER: Você disse que por meio dos irmãos Coen sua visão desse personagem mudou. Em que sentido?
Bardem:  Normalmente, tenho preconceito contra filmes exageradamente violentos. Quando conversei com os diretores sobre o filme e o meu papel, percebi que eles também queriam tratar da filosofia da violência, daquilo que está por trás de Chigurh. Como nós vemos, como vivemos nossa relação com a violência? Como poderíamos impedi-la? Porque o que aprendemos nesse filme é o seguinte: uma vez deflagrada a violência, não dá mais para contê-la.


SPOILER: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ é considerado um dos filmes mais duros dos irmãos Coen…
Bardem: Com certeza é um dos mais intensos. Mas os Coens também fazem muita questão de que o clima nas filmagens sempre permaneça relaxado e agradável. Toda vez que percebem que se instalou certa tensão, eles interrompem. Tudo deve se desenvolver a partir do relaxamento, da alegria do fazer. Há quem pense o contrário, que os filmes devem ser feitos sob tensão, mas acho isso bobagem.

SPOILER: – Qual é o tom do filme?
Bardem: É seco, tanto que não tem música. Ele desenvolve seu ritmo próprio, com a mistura entre dureza e humor, típica dos irmãos Coen. Apresenta uma paisagem muito bela, não é à toa que Roger Deakins é considerado um dos melhores cameramen do mundo. Ele retrata esse mundo de forma jocosa e maravilhosa. Mas isso você, como crítico, deve julgar, não eu. Vejo sobretudo meus erros.

SPOILER: – Dá para constatar esses erros com tanta clareza?
Bardem: Eu só consigo avaliar meu trabalho a distância, depois de certo tempo. Então posso dizer que, com base nas condições durante as filmagens e em minha própria experiência naquela data, isso e aquilo estavam certos e funcionaram. Outras coisas, não.

SPOILER: – Você considera seu personagem como uma pessoa real ou acredita que ele tenha um caráter mítico?
Bardem: Eu diria que ele é mais uma figura simbólica que um ser humano real. Cormac McCarthy (autor do romance) não escreveu mais do que algumas linhas ao caracterizá-lo, isso não ajuda muito.

SPOILER: – Também no filme Sombras de Goya você encarnou o mal como o inquisidor Irmão Lorenzo. Isso o ajudou na interpretação de seu papel?
Bardem: Sim, ainda que aquele tenha traços mais humanos, já que se trata de um fanático. Ele busca o poder e crê na fé em si. Anton Chigurh não tem um propósito.

SPOILER: Qual foi seu papel mais difícil? O de tetraplégico que lutava pelo direito à eutanásia em MAR ADENTRO?
Bardem: Aquilo foi com certeza um grande desafio – ter de interpretar aos 35 anos um homem 20 anos mais velho. Mas creio que o diretor Alejandro Amenábar tem o principal crédito pelo enorme sucesso. Se fosse uma peça de teatro, o público fugiria depois de dez segundos (risos). Ele encenou isso maravilhosamente bem, mas foi um filme muito maduro para alguém jovem como eu.

Por Harald Pauli (Revista Focus)

This entry was posted on Sunday, April 13th, 2008 at 14:21.
Categories: ARTIGOS.

No Comments, Comment or Ping

Reply to ““O cabelo fez meu personagem””


Registro de 

Domínio e hospedagem profissional de sites é só na Insite