SIN CITY é a melhor adaptação de um gibi da história? Não, mas com certeza é a mais fiel. O grande trunfo da obra de Robert Rodriguez e Frank Miller, ironicamente, é seu único defeito: ele é tão parecido com o material original que passa a sensação de estarmos diante de uma HQ em movimento e não de um filme de verdade – sem contar que não há surpresas para quem já leu as revistas.
Deixando esses pontos bem claros, SIN CITY é um ótimo longa. Não tem como ser de outra forma: As minisséries transpostas com tanta paixão são obras pesadas da ficção pulp dos anos 50 e 60, sempre seguindo a teia noir do “não se envolva com aquela gata porque é confusão na certa” que tanto Cagney se viu preso.
O cenário noir é o contraponto do exagero, do expressionismo alemão sendo levado às últimas conseqüências por fanáticos por cultura pop – em determinado momento, Marv, o brutamontes de Rourke, é atropelado três vezes como em um desenho animado da Hanna-Barbera. A mistura do estilo over com a violência visual criativamente escondida pela arte em preto-e-branco deixa a produção num patamar ousado e original. Até mesmo a nudez das mulheres – acredite, são muitas – é uma mistura de tesão e perversão cômica que guarda muito da marca de Rodriguez.
Misturando Nova York e Los Angeles, a cidade fictícia de Sin City é onde três histórias se cruzam. Foi criada para os quadrinhos em 1991. Tudo é em preto, branco e cinza, com detalhes coloridos, a cor dos olhos de uma mulher, seu batom, os lençóis da cama, o vilão amarelo.
Na primeira história, o policial John Hartigan (Bruce Willis) salva uma menina de 11 anos de ser assassinada por um psicopata – o problema é que o psicopata é na verdade filho de um dos mais poderosos homens do País, coronel da cidade. Sua vida se torna sem valor a partir daí e ele mofa oito anos na cadeia, vivendo unicamente das cartas que a menina salva lhe envia. Aí, ele tem de salvá-la mais uma vez, só que agora ela já é uma mulher (Jessica Alba).
Na segunda história, o lutador de rua Marv (Mickey Rourke) vê a única mulher que o enxerga sem cicatrizes, Goldie (Jamie King), ser assassinada enquanto dorme. Ele procura o assassino (Elijah Wood) e faz disso sua última missão no planeta.
Na terceira história, o detetive particular Dwight (Clive Owen) se vê no meio de uma das coisas que procura evitar em sua vida: problemas sem fim. Ele é arrastado para uma guerra entre um grupo de prostitutas liderado pela bela Gail (Rosario Dawson) e a polícia mais corrupta do planeta.
A narrativa é deslumbrante: personagens de uma história atuam na outra, passeiam pelo cenário de outra, cruzam caminhos. Tudo é amarrado por duas cenas curtas, escritas para iniciar e concluir o filme. É como misturar Dashiel Hammett, Raymond Chandler e David Goodis num único coquetel gráfico, como um anúncio luminoso de curva de estrada desenhado por Edvard Munch.
O filme pode ser chocante para quem tem estômago fraco. Apesar de todas as cenas violentas serem muito estilizadas, há matança em profusão, afundamento de crânios, membros extirpados e coisas do tipo. SIN CITY não é um filme. É a criação e, simultaneamente, a consolidação definitiva de um novo “gênero” no cinema. É o PULP FICTION das adaptações de quadrinhos.
Spoiler Rating: 88
LBC Rating: ~

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