
Mais independente do que isso é impossível: Um filme caseiro, improvisado, rodado em vídeo digital em duas semanas com uma equipe minúscula formada pela família e amigos da diretora. E a primeira meia-hora de CHARLY dá a entender que isso pode ter sido um equívoco da jovem atriz francesa Isild le Besco, ao acompanhar a fuga de um adolescente rural.
Nicolas fala pouco, sabemos que vive com um casal idoso (avós?) em condições precárias, percebemos que é mau aluno. Ele rouba um livro de um professor que encontra num café. No livro há um cartão-postal de Belle-Île e nessa mesma noite, o jovem parte em viagem. Nicolas diz poucas palavras ao longo de uma hora e meia de filme, aliás, o seu discurso resume-se praticamente a duas palavras: “Não sei”.
É tudo vazio e opaco até Isild le Besco largar o seu trunfo: Charly, uma jovem prostituta que vive em condições tão precárias como Nicolas e que o acolhe por alguns dias. Assim que Julie-Marie Parmentier entra em cena, CHARLY dá um salto de gigante e transcende o miserabilismo inicial para se tornar num registro tocante de uma relação tentativa, misto de crianças brincando de adultos, de irmãos que nunca se viram e de namorados que aprendem a viver juntos, entre dois jovens para quem a vida sempre lhe tratou como se fosse uma madrasta.
A câmera móvel de Jowan le Besco os capta com intimidade e pudor. Não é certamente por acaso que o filme se chama CHARLY e não Nicolas - como se Isild percebesse que é esta jovem forçada a crescer demasiadamente depressa que dá ao filme a sua razão de ser. Não chega para fazer de CHARLY um grande filme, mas torna-o um objeto que merece atenção e revela uma atriz que vale a pena acompanhar.
Spoiler Rating: 71
LBC Rating: ~
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