José Luis Guerin, 48 anos, foi homenageado no Festival IndieLisboa recentemente e SPOILER teve uma breve conversa com um dos mais estimulantes cineastas espanhóis da atualidade. Confira:
SPOILER: Do que você gosta no cinema espanhol atualmente?
JOSÉ LUÍS GUERIN: Victor Erice. É de quem me sinto mais próximo. Tenho inveja da política cultural portuguesa. É impressionante que um país tão pequeno tenha gerado tantos cineastas tão bons. Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa… Na Espanha há alguns cineastas jovens que sigo com atenção e esperança.
SPOILER: Há um grande intervalo entre seus. É uma escolha ou uma contingência?
GUERIN: As dificuldades condicionam esse intervalo. Mas também é verdade que meus filmes são de cozedura lenta. E algumas experiências precisam de tempo, como EN CONSTRUCCIÓN que foi filmando a pouco e durante três anos. Mas começo a ver isso com certo drama porque fiz 48 e nesse ritmo farei o próximo filme com 54 ou 55…
SPOILER: Sente que pode fazer alguma coisa para encurtar os intervalos?
GUERIN: Sim. É algo que talvez passe pelas novas tecnologias. Fiz UNAS FOTOS EN LA CIUDAD DE SYLVIA praticamente durante a filmagem de EN LA CIUDAD DE SYLVIA, sozinho, usando a minha pequena câmera de vídeo. Curiosamente são as novas tecnologias que nos permitem recuar e chegar próximo do cinema primitivo ou do pré-cinema, da fotografia sequencial, como a entendiam Muybridge ou Marey. Talvez no futuro alterne os filmes, digamos, “perifericamente industriais” com este tipo de solilóquios propiciados pelas novas tecnologias.
SPOILER: Os seus filmes são conceitualmente muito definidos. É o conceito que os gera ou é encontrado apenas depois?
GUERIN: O conceito revela-se mais tarde. Os meus filmes nascem sempre de uma imagem. Quando essa imagem volta reiteradamente e não sai da cabeça, tenho que enfrentá-la. Gosto de entender o cinema como uma forma de revelação. Como espectador também sou assim: o que me entusiasma perante uma tela branca é a expectativa de que alguma coisa me seja revelada.
SPOILER: É por isso, pela descoberta, que filma tanto no estrangeiro, na Irlanda (INNISFREE) ou na França (EN LA CIUDAD DE SYLVIA)?
GUERIN: A viagem está intimamente ligada ao cinema. Um filme é uma viagem, um trajeto no espaço e no tempo. EN CONSTRUCCIÓN foi rodado na minha cidade [Barcelona], mas gosto muito de filmar fora. Talvez tenha a ver com a minha infância, passada num franquismo triste e cinzento, onde o cinema servia para sonhar com outros mundos.
Por Luís Miguel Oliveira
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