CANNES (Dia 1):BLINDNESS levou visões apocalípticas da sociedade em colapso ao Festival de Cinema de Cannes nesta quarta-feira, e o diretor Fernando Meirelles admitiu que o cenário sombrio que ele fez da humanidade foi uma escolha estranha para abrir o glamouroso evento francês.

“O que primeiro me chamou a atenção foi a idéia de uma civilização que perde o rumo, mas o relato permite leituras de nível psicológico, filosófico, político, sociológico…”, resumiu Meirelles ao ser questionado sobre os paralelismos com o furacão Katrina nos Estados Unidos ou as catástrofes recentes em Mianmar e China.

“Fico chocado com a fragilidade de nossa civilização, é como se patinássemos sobre uma camada de gelo muito fina. No fundo somos primitivos como os animais”, disse. “Nós nos achamos tão fortes, sofisticados e sólidos”, disse Meirelles a jornalistas depois da exibição do filme para a imprensa. “Mas então uma coisa dá errado e tudo desaba. Patinamos sobre gelo fino. Qualquer coisa pode acontecer e acontece.

Porém, o próprio Saramago não queria que o filme tivesse como base um contexto muito concreto. “Ele preferia que fosse uma alegoria, una metáfora livre, aplicável a casos gerais”, disse o diretor. O cineasta destacou que, apesar de sua severidade, o livro tem muito humor.

“Da terceira vez que o li, vi que é cínico e divertido, sobretudo quando fala das autoridades”. Gael García Bernal e Alice Braga eram os únicos atores que haviam lido “Ensaio sobre a Cegueira” antes de receber o roteiro do longa-metragem.

“Foi uma boa surpresa ser convidado e me surpreendeu ter feito este personagem”, capaz de recorrer a métodos não convencionais para que seus amigos possam comer, disse García Bernal.

Danny Glover se disse próximo à filosofia do livro e chegou a mencionar o escritor uruguaio Eduardo Galeano na entrevista.

“Vivemos em um mundo no qual os que sofrem são invisíveis para todos nós”, afirmou o ator americano, que lembrou “as milhões de pessoas que sobrevivem no mundo com menos de um dólar por dia”.

O diretor desta co-produção Brasil-Canadá-Japão destacou ainda a química existente desde o primeiro momento em uma equipe tão internacional.

“Nós também criamos rapidamente uma comunidade; como os personagens da história, estávamos sempre juntos ao longo da filmagem”.

Meirelles admitiu com um sorriso que exibir um filme como BLINDNESS na abertura do Festival de Cannes representa muita pressão. “Sinceramente, não acredito que seja a melhor maneira de começar um festival”, brincou

Por Mike Collett-White (Reuters)

This entry was posted on Thursday, May 15th, 2008 at 2:39.
Categories: FESTIVAIS.

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