Numa manhã de sol de Março de 1928, Christine Collins, uma funcionária da companhia dos telefones de Los Angeles e mãe solteira, deixou o filho de nove anos sozinho em casa para ir fazer o turno de uma colega. Quando voltou, o menino tinha desaparecido. Cinco meses depois, a polícia de Los Angeles, conhecida à época pela sua brutalidade, corrupção e incompetência, e alvo de críticas violentas de um crescente número de cidadãos, achou a criança perdida e a entregou à mãe.

Esta, no entanto, não reconheceu o garoto como seu filho, e vendo-se alvo de um cruel e absurdo engano, começou a protestar junto às autoridades, exigindo que as buscas fossem retomadas, com o apoio do prestigiado reverendo Gustav Briegleb, um dos principais promotores públicos dos abusivos métodos. Mas em vez de obter uma admissão do erro por parte da polícia, e a reabertura do caso, Christine foi internada à força pelas autoridades num manicômio de mulheres, e submetida às mais impensáveis pressões e abusos, ao mesmo tempo em que lhe era proposta a liberdade imediata em troca da assinatura de um documento pelo qual admitia que a criança que lhe havia sido entregue era mesmo sua, e que estava mentalmente perturbada.

Esse foi apenas o início de uma das mais macabras e inacreditáveis histórias de terror fabricado pelas mãos humanas nos EUA, que redundou na descoberta de um crime em série hediondo, num escândalo público e conseqüentemente queda dos poderes policiais e municipais, e numa condenação à morte.

Em THE EXCHANGE, Eastwood recorda a saga de Christine Collins e a grande comoção que sacudiu Los Angeles há 80 anos, surgindo como o principal favorito à Palma de Ouro. O filme, além de ser uma das mais poderosas e tocantes ilustrações da força do amor maternal e da perseverança de uma mulher já postas em celulóide, uma evocação minuciosa e nada nostálgica da vida daquela cidade numa das épocas mais negras e agitadas da sua história, é ainda uma das derradeiras manifestações, no cinema contemporâneo de Hollywood, do “modo de fazer” do grande cinema clássico americano.

Com THE EXCHANGE, Clint Eastwood dá uma masterclass prática de cinema, posicionando-se como o último, mas jamais venerando ou empoeirado, catedrático do cinema americano, um grave, inspirado e ético continuador das lições dos grandes mestres desaparecidos. E revela ainda, através da interpretação de Angelina Jolie no papel de Christine Collins, que uma atriz indiferente pode aspirar a ser grande, quando posta nas mãos de um grande diretor.

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~

This entry was posted on Wednesday, May 21st, 2008 at 11:03.
Categories: SPOILERS.

4 Comments, Comment or Ping

  1. “Changeling” foi recebido de maneira maravilhosa em Cannes! Só fez aumentar minha ansiedade em assistir a este filme.

    Quanto às línguas maldosas, é óbvio que, se Eastwood sair premiado, vão dizer que foi porque o Sean Penn trabalhou com ele. Mas, as críticas estão aí para justificar que Changeling merece todas as honras que conquistar.

  2. Parece que o cara, o legendário não erra mais.

  3. Estou na dúvida se o Clint Eastwood será premiado, afinal favoritismo demais nunca é bom negócio - os irmãos Coen que o digam. Mas com o Sean Penn no júri, acho que tem boas chances de ao menos levar um prêmio direção, já que a Palma de Ouro sempre vai para um candidato mais “alternativo”.

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