


É evidente que CHE só compete pela Palma de Ouro pela importância política do tema, com a especulação sobre o futuro de Cuba depois do afastamento de Fidel. Soderbergh adota um tom sóbrio demais, mas com certa admiração pelo guerrilheiro.
Previsto comercialmente em dois filmes (O ARGENTINO e GUERRILHA), a biografia do mito latino-americano foi unificada sob um mesmo título e apresentada em duas partes em Cannes. A primeira tem muito mais ritmo, uma fantástica mescla de estilo documental e ficção, com imagens em preto e branco. Ela reconstitui a revolução cubana e o discurso de Guevara na ONU em meados dos anos 60 de uma só tacada. Aqui, trata-se de uma epopéia onde Soderbergh monta uma cartilha estética, produzindo um épico sobre a vitória da utopia cubana.
Já a segunda, que se centra no período boliviano, é muito mais linear e claustrofóbica, além de mais lenta e um pouco confusa. A fragmentação do capítulo inicial dá lugar a uma narrativa mais crua, clássica, com uma montagem mais linear centrada inteiramente no personagem de Benicio Del Toro.
A primeira parte fala de sonhos coletivos, portanto precisa de uma pluralidade de olhares, traduzida em lances de câmera picotados. Esses picotes são organizados numa espécie de colcha de retalhos utópica. O segundo seguimento, ambientado quase que inteiramente na Bolívia, resgata os meses finais da vida do guerrilheiro, portanto fala de sacrifício, um gesto que costuma ser individual.
O Guevara de Del Toro é econômico, sem arroubos poéticos, sem falas magnânimas. Seu Guevara é um ser humano, cercado de vitórias e fracassos na trajetória político-guerrilheira a qual se devotou. Um Guevara como esse o cinema nunca viu. Aliás, é difícil apontar uma interpretação tão boa, tão inteligente quanto a de Del Toro nesse festival.
Spoiler Rating: 89
LBC Rating: ~
Por Thiago Stivaletti (UOL), Luis Carlos Merten (Agência Estado), Kleber Medonça (Jornal do Comercio) & Rodrigo Fonseca (O Globo)
3 Comments, Comment or Ping
Vinícius P.
Ainda estou um pouco confuso quanto à recepção desse filme, já que alguns críticos dizem que é uma obra-prima, enquanto outros desaprovam o resultado quase que completamente - elogiando apenas a atuação do Benicio Del Toro. É esperar por um filme polêmico…
May 22nd, 2008
Kamila
Comentei isso no blog do Vinícius e acho que a atuação de Del Toro será a grande barbada desse festival. Acredito que não existe outro ator favorito ao prêmio de atuação masculina no festival.
Quanto à reação mista recebida por “Che”, acredito que isso foi influência do cansaço mesmo dos jornalistas às mais de quatro horas de projeção. Com um tema denso desses, os jornalistas precisavam de mais tempo para digerir os dois filmes.
May 22nd, 2008
Reply to “Che”