


O que é verdadeiro e o que é ”verdade”? Esse é o tema (um dos, pelo menos) do filme de Paolo Sorrentino, IL DIVO. O ”divo”, em questão, é Giulio Andreotti, político que dominou os últimos 50 anos da vida política italiana, tendo sido sete vezes presidente do Conselho de Ministros e 25 vezes ministro, além de senador vitalício. Andreotti, à frente do partido da Democracia Cristã, foi o cara que se recusou a negociar com as Brigadas Vermelhas a libertação de Aldo Moro, e essa é uma cruz que ele carrega no filme de Sorrentino. Você nunca viu, e talvez nunca verá, cinebiografia como esta.
IL DIVO abre com uma frase atribuída a Rosa Andreotti, mãe de Giulio. ”Se você não pode falar bem de uma pessoa, não fale nada.” A construção da persona política de Andreotti pode muito bem ter começado daí, mas há outras frases do próprio Andreotti que vale reter. ”Quando perguntaram a Jesus, nos Evangelhos, o que é a Verdade, ele não respondeu” e ”Nos romances policiais, a gente encontra sempre o culpado; na vida, é mais difícil.” Não são só frases de efeito, mas normas de conduta que Andreotti transformou em dogmas, na vida e na política. Era cínico, ambíguo, uma esfinge. Margaret Thatcher disse dele: ”Não apenas parece absolutamente contrário aos princípios éticos como está convencido de que, na política, uma pessoa de princípios é condenada a ser ridícula.”
Por aí o espectador pode ter idéia das dificuldades que Sorrentino encontrou para resumir essa vida num filme. IL DIVO prossegue com o rigor extremo de LE CONSEQUENZE DE L”AMORE e L”AMICO DI FAMIGLIA, mas o que fascina no cinema do autor é a extrema inteligência da mise-en-scène. Andreotti era feio; chamavam-no O Inexorável, Moloch, Belzebu. Sorrentino filma bem e monta melhor ainda, mas o chamado ”realismo de cena” está colocado a serviço de algo mais ”irreal”, sempre um tom acima e que transforma Andreotti em personagem ora patético, ora bufão, mas quase sempre trágico.
Como revelar o homem por trás da máscara? Qual sua verdade? Questões complexas que ficam com o espectador e fogem ao modelo do cinema político eficiente (e direto) praticado pelo cinema italiano por volta de 1970. Nada do sentimentalismo de um contemporâneo de Sorrentino, Marco Tullio Giordana, em OS CEM PASSOS. Sorrentino faz outra coisa. Ele reinventa o tom exacerbado de Elio Petri em seus cults com Gian-Maria Volontè, INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA e A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO.
Spoiler Rating: 87
LBC Rating: ~
Por Luis Carlos Merten (Agência Estado)
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Vinícius P.
Parece que a Itália voltou a apresentar um grande cinema nesse Festival de Cannes, algo que já não acontecia há um bom tempo. “Gomorra” e agora “Il Divo” surpreenderam e parecem estar entre os favoritos…
May 24th, 2008
Bruno Baronetti
O filme mostra também que com o passar do tempo o poder foi se tornando enfadonho para Andreotti. Humaniza e satiriza de forma brilhante suas terríveis dores de cabeça, propõe um problema de consciência moral, sempre presente que é a morte de Aldo Moro, talvez o tema mais comentado depois da máfia no cinema italiano a partir dos 80. Sorrentino trata os políicos da corrrente (que as legendas da mostra traduziram como facção!?) de Andreotti como trata a maioria dos políticos italianos: contraditórios, bufões, apegados ao poder e sempre com relações escusas debaixo do tapete, seja em corrupção seja em ligações com a máfia, esta que respingou no próprio Andreotti, apesar dele ser absolvido em todos os processos.
Mais do que falar de Andreotti, o filme revela o ambiente das decisões de poder na Itália nos anos 80 e 90, e as consequencias dessas decisões, e desse projeto político que gerou Silvio Berlusconi, que antes de montar a Forza Itália, e se aliar aos separatistas do Norte, era um político ligado a Democracia Cristã.
A trilha sonora do filme é belíssima, ora contrastando um ambiente de drama e seriedade com músicas pops avassaloras, ora corroborando com as cenas com músicas instrumentais orquestradas.
Vale muito a pena ver o filme, e mais de uma vez porque são apresentados dezenas de personagens, menos conhecidos da política italiana, e que hoje amargam o ostracismo!
Oct 31st, 2008
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