
Quando o Festival de Cannes começou, o ator e diretor americano Sean Penn, presidente do júri, disse que os prêmios dessa 61ª edição não poderiam deixar de refletir acontecimentos como o recente terremoto na China. Afirmou também que o júri iria dar particular atenção aos filmes com temas atuais, muito ligados à realidade de hoje, e com ressonâncias políticas e sociais. Por seu lado, Thierry Frémaux, o diretor artístico do festival, tinha dito poucos dias antes que os filmes passados em Cannes eram sempre “um eco do que acontece no mundo”.
Penn e seus confrades vão ter um trabalhão entre mãos. Não só a Seleção Oficial manteve esse ano uma grande constância na qualidade, com filmes bons ou muito bons sucedendo-se uns aos outros, como grande parte deles abraçaram assuntos tão atuais como a situação no Oriente Médio (a animação WALTZ WITH BASHIR, de Ari Folman), mulheres encarceradas com filhos (LEONERA, de Pablo Trapero), a vida de uma família sem pai num bairro de lata de São Paulo (LINHA DE PASSE), as transformações sociais e econômicas na China (24 CITY, de Jia Zhangke), a Camorra (GOMORRA, de Matteo Garrone), a imigração (LE SILENCE DE LORNA, dos irmãos Dardenne), a corrupção na polícia (THE EXCHANGE, de Clint Eastwood), as revoluções violentas (CHE, de Steven Soderbergh), a Internet e o mundo pós-11 de Setembro (ADORATION, de Atom Egoyan), as sujeiras dos bastidores da política (IL DIVO, de Paolo Sorrentino) ou os problemas sociais da educação (ENTRE LES MURS, de Laurent Cantet).
Até ontem, havia dois grandes favoritos à Palma de Ouro. THE EXCHANGE, onde Clint Eastwood narra, na mais clássica linguagem do grande cinema americano, um escândalo macabro sucedido na Los Angeles dos anos 20, que começou com a entrega, pela polícia, da criança errada a uma mãe cujo filho tinha desaparecido, e acabou com a demissão das chefias policiais e a queda do gabinete do prefeito. E GOMORRA, do italiano Matteo Garrone, que adapta com justeza documental o livro homônimo do jornalista italiano Roberto Saviano (que vive atualmente sob proteção policial) sobre a onipresença e o poder corruptor da Camorra em Nápoles e no sul de Itália. Fala-se ainda da possibilidade de uma terceira Palma para os Dardenne, com LE SILENCE DE LORNA.
Mas a projeção, na sexta-feira, quase no fim da competição, de ENTRE LES MURS, do francês Laurent Cantet, transformou o retrato do quotidiano de um liceu parisiense “difícil” num fortíssimo candidato ao prêmio máximo do festival. Desde SOB O SOL DE SATÃ, de Maurice Pialat, em 1987, que a França não ganha a Palma de Ouro (e mesmo assim, Pialat foi fortemente contestado). Se tal acontecer com ENTRE LES MURS, será uma vitória que muito poucos estranharão, quer pela qualidade do cinema apresentado por Cantet, quer pelo filme caber como ervilha em vagem nas intenções do júri.
Entre os atores, a argentina Martina Gusman, em LEONERA, Angelina Jolie, em THE EXCHANGE, a kosovar Arta Dobroshi, em LE SILENCE DE LORNA, de Luc e Jean-Pierre Dardenne, e a turca Hatice Aslan, em THREE MONKEYS, de Nuri Bilge Ceylan, são as favoritas ao prêmio de Melhor Atriz. Para o de Melhor Ator, os mais bem colocados são Mathieu Amalric (UN CONTE DE NOEL, de Arnaud Desplechin), Joaquin Phoenix (TWO LOVERS, de James Gray), e Benicio Del Toro, pelo seu Che Guevara em CHE, de Steven Soderbergh. E à última hora, o professor, jornalista e escritor François Bégaudeaud, por ENTRE LES MURS. Esse ano vai ser muito disputado.
Enquanto isso, o júri pediu para rever somente um filme, e foi o filipino SERBIS, de Brillante Mendoza, que muita gente não agüentou ver inteiro, desistindo logo no primeiro intercurso, que mostra, com direito a sexo explícito, penetração e tudo, uma relação hetero. SERBIS não é um grande filme e, menos ainda, o melhor filme de Cannes 2008, mas certamente não é o horror pintado por quem não suportou sua provocação. Será?
(*)Avaliação feita pelos jornais Le Figaro, Libération, Télérama, Le Monde, L’Humanité, Metro, 20 Minutes, Les Inrocks e Spoiler Movies até às 10hs do dia 25/05 - Sujeito à alterações.
Os favoritos segundo o “Le Figaro”
1. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman
2. THE EXCHANGE | Clint Eastwood
3. CHE | Steven Soderbergh
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Os favoritos segundo o “Libération”
1. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne
2. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman
3. UN CONTE DE NOËL | Arnaud Deplechin
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Os favoritos segundo o “Télérama”
1. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman
2. UN CONTE DE NOËL | Arnaud Deplechin
3. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne
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Os favoritos segundo o “Le Monde”
1. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne
2. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman
3. THE EXCHANGE | Clint Eastwood
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Os favoritos segundo o “Metro”
1. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne
2. THE EXCHANGE | Clint Eastwood
3. SERBIS | Brillante Mendoza
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Os favoritos segundo o “Spoiler Movies”
1. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman
2. THE EXCHANGE | Clint Eastwood
3. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne
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1. VALSA PARA BASHIR | Ari Folman - 93
2. LE SILENCE DE LORNA | Jean-Pierre & Luc Dardenne - 93
3. MY MAGIC | Eric Khoo - 91
4. THE EXCHANGE | Clint Eastwood - 90
5. ADORATION | Atom Egoyan - 90
6. CHE | Steven Soderbergh - 89
7. TWO LOVERS | James Gray - 88
8. IL DIVO | Paolo Sorrentino - 87
9. ENTRE LES MURS | Laurent Cantet - 86
10. UN CONTE DE NOËL | Arnaud Deplechin - 84
11. LEONERA | Pablo Trapero - 83
12. SERBIS | Brillante Mendoza - 83
13. 24 CITY | Jia Zhangke - 82
14. GOMORRA | Matteo Garrone - 80
15. PALERMO SHOOTING | Wim Wenders - 80
16. SYNECDOCHE, NEW YORK | Charlie Kaufman - 80
17. LINHA DE PASSE | Daniela Thomas & Walter Salles - 80
18. THREE MONKEYS | Nuri Bilge Ceylan - 77
19. LA FRONTIÈRE DE L`AUBE | Philippe Garrel - 75
20. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA | Fernando Meirelles - 64
21. LA MUJER SIN CABEZA | Lucrecia Martel - 60
–. DELTA | Kornel Mundruczo - ~~
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Vinícius P.
Também acredito que “Valsa com Bashir” sairá com ao menos um prêmio dessa edição - por enquanto aposto no ‘prêmio do júri’, mas as possibilidades de vencer a Palma de Ouro também são altas. E seria ótimo se os Dardenne ganhassem mais uma vez…
May 25th, 2008
Reply to “Nove Jurados e uma Sentença”