Julianne Moore anunciou em Cannes que em agosto estará de volta ao Brasil, para participar das entrevistas de lançamento de BLINDNESS, ou melhor, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago. Julianne nunca havia estado na América do Sul, antes de rodar cenas do filme em Montevidéu (uma semana) e São Paulo (duas semanas). ”É uma cidade muito cosmopolita e atraente. Fiquei bem feliz por ter estado lá e agora poder voltar”, ela disse.
César Charlone, o grande diretor de fotografia dos filmes de Fernando Meirelles, já havia comentado que Julianne, assim como Ralph Fiennes - ator de O JARDINEIRO FIEL -, representa para a câmera. Ao chegar ao set, a primeira preocupação de ambos é saber onde estará a câmera e com que lentes ou de que ângulos serão filmados. Quando questionada sobre seu segredo de atriz - como ela representa para a câmera ou tenta ignorá-la de forma tão intensa -, Julianne não vacila. ”A câmera mediatiza minha relação com o público. É através dela que sou filmada. É importante saber onde estará a câmera e como serei filmada. Faz parte das minhas ferramentas de atriz do cinema. Mas, depois, o movimento é rigorosamente inverso. Sabendo onde está a câmera, tenho de me esquecer dela para me entregar à personagem.”
Ela ri do que, afinal de contas, é este métier de atriz. ”Sou uma mãe dedicada, mas se meus filhos quiserem jogar bola e me atirarem uma, eu vou fugir. Se isso faz parte da natureza de minha personagem, vou até o fim.” Apesar da dedicação, ela comenta, como verdadeira, uma frase que lhe disse justamente Ralph Fiennes. ”Não importa o que a gente faça para estar na pele do personagem, ao me ver na tela sou sempre eu.” Julianne admite que não conhecia o romance de Saramago antes que o roteiro do filme lhe fosse enviado. Ela aceitou, entusiasmada (”excited”) com a idéia de filmar com o diretor de CIDADE DE DEUS.
Quando leu o livro foi que ela se deu conta das dificuldades que Meirellres e o roteirista Don McKellar haviam enfrentado. ”O livro é muito mais interiorizado. Quase tudo se passa dentro dos personagens. Seus sentimentos, sensações. E isso não se mostra no cinema, que capta basicamente o exterior.”
No ano passado, ela esteve em Cannes mostrando, na Quinzena dos Realizadores, o filme de Tom Kalin, PECADOS INOCENTES, que ainda está em cartaz nos cinemas de São Paulo. Julianne faz uma mãe que estabelece uma relação destrutiva com o filho. Em ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, sua personagem precisa se transformar na mãe do próprio marido para redimir a humanidade, quando um vírus transforma todo mundo em cego e só ela permanece vendo. Alguma conexão entre as duas personagens? Julianne surpreende-se. ”Savage Grace baseia-se numa história real. Blindness é uma ficção que pretende ser uma alegoria sobre a fragilidade da nossa civilização e o risco da barbárie. Mas, já que você falou, meu marido no filme de Meirelles (Mark Ruffalo), no início, infantiliza a mulher. Depois, ela o atende como se fosse criança, quando fica cego. E só bem mais tarde ambos conseguem estabelecer uma relação madura, como casal.”
Ela não concordou com uma coisa que foi dita com alguma freqüência em Cannes - o que existe de mais iluminador em ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA não basta para compensar toda aquela degradação, urbana e social, que se vê na tela. ”Acho que Fernando fez um ”terrific job” (um trabalho maravilhoso). Há todo um subtexto realista e eu duvido que outro diretor conseguisse filmar melhor do que ele, e creio que é esse realismo que sustenta o nível filosófico e o caráter de advertência política contidos em ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA.” Já que ela falou em degradação urbana - a cidade do filme não é identificada, mas Meirelles junta, numa mesma tomada, cenas filmadas em São Paulo com outras no Uruguai e no Canadá. ”É desconcertante. Muitas vezes cria uma sensação de confusão. Onde eu estava naquele momento? A unidade me pareceu impressionante, mesmo que às vezes seja nítida a passagem de um plano mais aberto para outro fechado onde se lêem melhor os signos da degradação.”
Uma pergunta mais frívola refere-se à sua decisão de transformar a personagem em loira. ”Achei que meus cabelos ruivos seriam chamativos dentro do visual adotado por Fernando para recriar a cegueira branca do livro. A idéia de tingir os cabelos partiu de mim, mas confesso que não agüentava mais esperar pelo final da filmagem para voltar a ser eu mesma.” Isso não parece contradição em relação ao que ela diz sobre um ator permanecer o mesmo, não importando o papel? ”Pode ser, mas trocar a cor do cabelo é uma experiência que espero não repetir. É como abrir mão de uma marca pessoal. Serviu à personagem, mas acabou.”
O que Julianne sente quando avalia sua carreira. ”Sinceramente? É uma coisa que sempre me surpreende. Nunca pensei chegar aonde cheguei, ter feito os filmes que fiz. Para mim, o cinema é uma arte do encontro. Tive a sorte de encontrar grandes diretores - Todd Haynes, Neil Jordan, Fernando Meirelles. Todos eles me ofereceram papéis que são verdadeiros sonhos para qualquer ator.” Já que ela falou sobre diretores, a pergunta inevitável - o que ela conhece de cinema brasileiro, tendo trabalhado agora com um cineasta do Brasil? ”Não muito, infelizmente. Conheço Walter - ela diz Úalter - Salles.” Apesar desse conhecimento restrito, Julianne vê em Blindness o futuro do cinema. ”Um filme supranacional, com a participação de artistas e técnicos de tantos países distintos. É eramos como uma família interagindo, e isso foi muito bonito.” Mais trechos da entrevista, a seguir.
FILHOS
Os filhos nunca são como você imagina. E isso é uma grande lição. Temos a tendência de definir tudo pelo que vemos ou pelo que pensamos estar vendo. Fazemos uma imagem dos filhos e, quando eles nascem, é uma surpresa: “Oh, é você!”. Com a diferença, você vê que eles são totalmente independentes de você. Minha filha nasceu com cabelos pretos, um topete, e era enorme. Pensei: “De quem é esse bebê?” Você tem esse momento de ajuste, de ver que as coisas não são como você pensava que seriam.
TRABALHO E FAMÍLIA
Tenho um trabalho de sorte. Terminei de filmar “Ensaio sobre a Cegueira” em setembro [de 2007] e não voltei a trabalhar antes de março. Isso é ótimo também no aspecto familiar. Meus filhos [uma menina e um garoto] adoraram “Ensaio sobre a Cegueira”. Eles foram comigo para as filmagens no Canadá. Tínhamos uma piscina e um jardim. Todos os dias eles iam para as filmagens e jogavam futebol com o Quico, filho do Fernando [Meirelles].
IDADE
Quanto mais você envelhece, mais você gosta da vida.
BONS PAPÉIS
Não importa com que idade você esteja, em que ponto de sua carreira, se você é homem ou mulher. Conseguir papéis bons é sempre difícil. E você tem pouco controle sobre isso.
PERSONAGEM SEM NOME
Foi interessante para mim e duro para todos encontrar um caminho para essa convenção [do filme] de não ter nomes. Foi difícil. Nós nos demos conta de quão forte é a identificação que temos com os nossos próprios nomes. Mas essa era a convenção do filme. Tínhamos que trabalhar com esses parâmetros. Nunca pensei num nome para ela. Foi muito, muito desafiador. O desafio era encontrar uma vida naquele mundo, sem ter nome nem passado. Como você constrói uma vida assim?
CHORO NO FILME
O choro é uma dessas coisas virtuais, que você não faz. Você sempre tenta não chorar. A última coisa que você quer é fazer você mesma chorar. Vou contar que não é nada fácil chorar atuando com um cachorro [numa cena do filme, o Cão das Lágrimas lambe o rosto de Julianne quando ela chora].
CENA DE ASSASSINATO
Acho muito trágico quando ela mata. Ela fica muito emocionada depois do ato, pensando como é horrível tirar a vida de alguém. Você vê muitos filmes em que isso é feito de forma muito fácil. Uma das coisas que me perguntaram muito é por que ela não faz isso mais cedo no filme. Achei isso interessante, porque me pareceu uma convenção do cinema. Alguém vê algo errado, vai direto na pessoa que está errada e mata. Quando ela mata, o marido diz: “Você criou outro problema. Você começou uma guerra”. Ela vê o problema. Não foi um ato bobo. E ela não tem uma visão heróica a respeito de tirar a vida de alguém, em qualquer circunstância. Isso é algo profunda e terrivelmente emocionante. Gosto do fato de o filme caminhar nesse sentido.
CINEMA COMERCIAL
Acho divertido fazer todos os gêneros de filmes. Fazer um filme como o “Ensaio sobre a Cegueira” e também um filme bem comercial, um de ação, um thriller, um drama. Eu me interesso por histórias, tanto histórias de arte quanto histórias comerciais.
Por Luis Carlos Merten (Agência Estado) e Silvana Arantes (Agência Folha)
4 Comments, Comment or Ping
Kamila
Adorei a entrevista/perfil da Julianne Moore, minha atriz favorita. Acho que ela é daquelas que possuem uma qualidade rara: quando a gente a vê em tela, não vê a atriz, e sim a personagem. Só gostaria que filmes como “Blindness” fossem uma constante na filmografia dela. Não entendo como ela se envolve naquelas bombas que inventa de fazer, entre um bom filme e outro.
Jun 10th, 2008
Vinícius P.
Julianne Moore é minha atriz preferida (como mostrei uma vez lá no blog numa lista especial) e adorei esse artigo, estou bem ansioso por seu trabalho em “Blindness” - sem falar que ela é o melhor aspecto do recente “Pecados Inocentes”, um filme bem mediano.
Jun 15th, 2008
Fernanda
Adorei a estrevista,a Julianne é uma atriz maravilhosa e parece ser uma pessoa exelente!!!
que bom que ela vem ao Brasil de novo e que pena que não vou poder ve-la pessoalmente!!! hahha
Jul 22nd, 2008
Reply to “O brilho de Julianne Moore”