Como se demonstra a verdade? A questão perpassa, além dos esforços de filósofos e cientistas, o modelo de ação de duas outras categorias: os documentaristas e os advogados. Para estes, ainda mais do que para aqueles, a verdade é aproximativa, nunca uma certeza inquestionável, satisfaz-se com um punhado de provas e se garante com uma convincente argumentação.
Em O ADVOGADO DO TERROR, o cineasta Barbet Schroeder sobrepõe essas características comuns ao cinema documental e à interpretação da lei num trabalho que guarda as mesmas qualidades dos bem-sucedidos thrillers que já dirigiu em sua incursão hollywoodiana. Quem viu há de se lembrar, por exemplo, da eficácia da ambigüidade das tramas de O REVERSO DA FORTUNA e MULHER SOLTEIRA PROCURA. Pois é de ambigüidade ainda, e à toda prova, que se constitui este O ADVOGADO DO TERROR. Schroeder monta, a partir de uma série de entrevistas com seu personagem e com aqueles que em algum momento fizeram parte de sua aventura, uma história de Jacques Vergès.
Pouco conhecido por nós, Vergès é célebre na França, desde quando, ainda jovem, assumiu a defesa dos então considerados “terroristas”, combatentes do colonialismo francês durante a guerra da Argélia, a partir de 1954, e cuja luta culminou com a independência do país, em 1962.
Depois desse batismo, Vergès passou a assumir causas contrárias aos poderes dominantes, como a defesa da opção dos palestinos pelo terrorismo, até se tornar uma espécie de bufão dos tribunais, convertendo-se em defensor de casos espetaculares, como o do nazista Klaus Barbie, do terrorista-mercenário Carlos, o Chacal, de ditadores sanguinários e outros réus indefensáveis.
Não escapa a Schroeder o fascínio de um Vergès simpático, fiel a princípios pessoais e que, assim, justifica sua adesão à causas carregadas de repulsa pública. Mas, apesar de conceder bastante espaço para suas justificativas, o documentário não se resume à reconstituição biográfica, seja para limpar a ficha de Vergès, seja para torná-la ainda mais suja.
O que Schroeder demonstra é a constituição de um discurso, tanto por meio de entrevistas quanto da hábil encenação dos materiais de arquivos. Sua ambição, porém, não chega aos limites de questionar o exercício em totalidade do direito como atividade sujeita a uma ética flutuante.
Sem se tornar partidário nem denunciador, o que o filme consegue é nos fazer acompanhar as metamorfoses do “terror” como ação política, desde os anos 50, e, mais ainda, entender como funciona a lógica daqueles que acreditam que “os fins justificam os meios”.
Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~
Por Cássio Starling Santos (Folha de São Paulo)
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