Um certo frisson ronda o lançamento de WALL-E. Mesmo que as primeiras reações à nova animação da Pixar tenham sido positivas, não se sabe ao certo como o público vai reagir a um filme com poucos diálogos, sem qualquer rosto ou voz facilmente reconhecível, e que tem como temas duas canções do musical ALÔ, DOLLY! (”Put on your Sunday Clothes” e “It Only Takes a Moment”).
WALL-E é a mais ousada produção da Pixar que se impôs frente à Disney ao realizar a primeira animação 100% computadorizada em Hollywood (TOY STORY) e acabou sendo incorporada por ela. Durante uns bons 20 minutos, há apenas um personagem em cena: Wall-E, o último robô do planeta que cumpre obsessivamente a tarefa para a qual foi programado -recolher lixo.
Nos intervalos, coleciona objetos deixados pela humanidade, refugiada em uma colônia espacial. “Sei que é o cenário mais solitário que poderíamos ter imaginado, mas acreditamos profundamente nele”, diz o diretor Andrew Stanton, em entrevista.
A idéia surgiu em um almoço que tomou proporções mitológicas. “Foi em 1994. “TOY STORY estava perto de ficar pronto e pensamos que talvez tivéssemos a chance de fazer outro.
”Começamos a dizer as idéias que passavam pela cabeça.” Daí nasceram VIDA DE INSETO, MONSTROS S/A, PROCURANDO NEMO e WALL-E. “Não tínhamos a história, só a vontade de fazer uma ficção científica sobre o último robô na Terra.”
Tudo, diz Stanton, se desenvolveu a partir dessa vontade inicial -inclusive a mensagem ecológica e o tom político (WALL-E é, de longe, a história mais crítica da Pixar). “Sinto desapontá-lo, mas não tenho uma agenda política nem mensagens ecológicas.
Reciclo o lixo, mas, mesmo assim, às vezes me confundo”, ri. “Não me importo que o filme apóie certas idéias, mas tudo nasceu em função da narrativa. Queria falar do último robô na Terra e precisava imaginar uma razão para os homens terem abandonado o planeta. O lixo me pareceu razoável.”
Mais tarde, quando seres humanos entram em cena, são criaturas preguiçosas e gordas. “Quando estávamos escrevendo o roteiro, tivemos um consultor da Nasa. Ele nos contou que, no espaço, o homem perde densidade óssea e, com o tempo, pode se tornar uma grande bolha. Pensei: “Perfeito’! Não quero ser ofensivo, mas estamos nos aproximando disso com nossas salas de estar repletas de controles remotos.
Nas primeiras versões, levei a idéia às últimas conseqüências e desenhei os humanos como grandes bolhas gelatinosas. Mas ficou grotesco demais.”
O maior desafio diante do árido cenário era criar um protagonista carismático. “Sendo fanático por ficção científica, vi que, em geral, há dois tipos de robô: o ser humano com pele de metal e o tipo R2D2, uma máquina cujo design é baseado em sua função, mas que ganha personalidade. Estava interessado nessa segunda idéia.”
A inspiração inicial veio de um curta de John Lasseter -fundador da Pixar- em que o protagonista é uma luminária. “Não era para ser um personagem, mas seu próprio design já lhe imprimia um caráter. Assim como Lasseter nunca desenhou a luminária, eu não poderia desenhar Wall-E. Teria que encontrar seu design. A base já sabíamos: um quadrado para compactar o lixo. Mas e o rosto? Descobri em um jogo de beisebol. Alguém me emprestou um binóculo. Perdi o jogo, ganhei o personagem.”
O segundo passo para dar vida ao robô foi um cuidadoso trabalho de som, a cargo do gênio Ben Burtt (criador das vozes de R2D2 e C3P0 em STAR WARS). Para Stanton, grande parte do carisma de Wall-E vem do silêncio: “Por que gostamos de animais de estimação e bebês? Há um charme em criaturas que não conseguem se comunicar plenamente”.
Por Pedro Butcher - Agência Folha
2 Comments, Comment or Ping
Vinícius P.
Como disse anteriormente, pelos comentários parece que a Pixar atingiu um nível inesperado com essa animação, nesse que talvez seja o melhor filme do ano até o momento. Acho que é isso que falta às demais produtoras: coragem (ou mesmo capacidade) para criar uma história tão crítica como essa vista em “Wall-E”.
Jun 29th, 2008
Kamila
Ainda não conferi “Wall-E”, mas assino embaixo do que o Vinícius escreveu.
Jun 29th, 2008
Reply to “Eu, Robô”