José Mojica Marins é hoje, sem sombra de dúvida, o cineasta brasileiro mais visto e cultuado do mundo. Ao longo de 20 anos, sua obra levou mais de 10 milhões de espectadores às salas de exibição de todo o país. Seu nome tornou-se indissociável de sua criatura.

Rompendo fronteiras, a obra de Mojica conquistou lugar de destaque na história do cinema de Horror mundial. Na década de 1990, seus filmes tornaram-se objeto de culto entre colecionadores do mundo todo, fato que acarretou a produção industrial e comercialização de seus vídeos e DVD’s nos EUA, Europa e Ásia. O personagem ganhou nome estrangeiro, Coffin Joe, e seu criador alcançou posição destacada entre os mais respeitados realizadores não só de cinema de Horror, mas de filmes independentes do planeta. Nos últimos anos, José Mojica Marins foi convidado para homenagens e retrospectivas de seus filmes em mais de 20 festivais internacionais. Foi, também, homenageado no maior festival de cinema independente do mundo, Sundance Film Festival, acompanhado da exibição de um vídeo sobre sua trajetória. Na ocasião ele concedeu uma entrevista à Spoiler, confira:

Spoiler: Qual a importância de ENCARNAÇÃO DO TERROR no arremate da trilogia do Zé do Caixão?
José Mojica Marins: Considero este filme a Bíblia do Terror da América Latina e tive carta branca de todos os meus parceiros para realizá-lo. Quem gosta do gênero terá um tenebroso caminho a seguir entre espectros, acontecimentos sobrenaturais, torturas e cenas violentas. Um filme completo para os amantes do gênero que estão em busca do desconhecido e do terror. Encarnação do Demônio retrata muitos detalhes que permitem compreender a ideologia e a filosofia do personagem, arrematando toda a sua trajetória.

Spoiler: Por que reviver um personagem depois de 40 anos?
Mojica: Foram mais de 40 anos de luta tentando viabilizar Encarnação do Demônio e acredito que vamos fazer muito barulho. Mas, no momento, meu sonho ainda não está terminado. Somente depois que eu viajar com o filme pelo Brasil e exterior e averiguar se era realmente isso que meu público esperava estarei realizado.

Spoiler: Quem é Zé do Caixão, hoje?
Mojica: O universo de Zé do Caixão é retratado desde o princípio do filme, com uma abertura em animação com veias e órgãos em formação. Ele tem uma ideologia muito forte e não se importa em ter que matar quem cruze seu caminho ou tente atrapalhar seus objetivos. Ele é como uma cobra, quem passa por ele é picado. Quem atrapalha o destino dele é morto.

O personagem acredita na hereditariedade do sangue e busca uma mulher que pense como ele. Ele não ama, não odeia, mas tem um espírito de justiça e, quando encontrar uma parceira com as mesmas qualidades para gerar o filho perfeito, se tornará imortal, pois sua ideologia será herdada por seu filho. Com o nascimento de netos e bisnetos, ele se imortalizará por meio da hereditariedade do sangue.

Zé do Caixão é um sádico e em Encarnação do Demônio isso é muito retratado. Em outros filmes ele já mantinha a prática da tortura, mas neste ela é muito mais violenta. Em uma das partes que considero mais violentas do filme, os policiais que espancavam Bruno, seu fiel servo, acabam pendurados por ganchos. A cena do purgatório também tem um impacto muito forte, ela é original do meu primeiro roteiro de 1966 e foi retrabalhada para ganhar ainda mais dramaticidade.

Spoiler: Como foi refazer o personagem depois de tanto tempo?
Mojica: Retrato um Zé humano, perseguido pelos fantasmas das pessoas que ele matou, o que significa que ele tem consciência do que fez, mas segue firme, pois acredita que é preciso demonstrar força até nos piores momentos. Anteriormente, em À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964), nos últimos trinta minutos do filme eu já mostro o remorso do personagem, que apesar de orgulhoso, demonstra seu lado humano quando tem alucinações com espectros de suas vítimas.

Ele é mal compreendido e acredita que a inocência tem que ser preservada, como no momento em que ele protege as crianças de policiais corruptos e consegue salvar uma delas. Ele tem uma revolta contra o sistema e acredita que todas as relações estão permeadas pela falsidade.

Spoiler: E como foi voltar a direção depois de 20 anos?
Mojica: Tive uma parceria fantástica neste filme com o Paulo Sacramento e os irmãos Gullane, tudo que solicitei foi atendido. Tive o controle total da filmagem para que as coisas pudessem ser feitas de acordo com minha linguagem. Mas também sou muito consciente sobre o ritmo da obra, não sou daqueles diretores que se apegam às cenas. É muito importante manter o ritmo do filme para que ele ganhe força. Não tenho o menor problema em cortar planos ou alterar a montagem para manter a qualidade final do produto.

This entry was posted on Saturday, July 19th, 2008 at 10:51.
Categories: MAKING OF.

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