
Há mais ou menos 40 anos José Mojica Marins não filmava. Fazia também quase isso, desde DELÍRIOS DE UM ANORMAL, que Zé do Caixão estava fora de circulação. E, quando começa a ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, fazia 40 anos que Zé do Caixão estava recolhido a uma penitenciária. Mesmo preso, diz-se em determinado momento, matou 29 pessoas.
Com toda essa ficha, ele consegue sair da cadeia e, de início, toma contato com um mundo de violência inesperada: Em São Paulo quase morre atropelado, é agredido verbalmente, é achacado num bar, cruza com meninos que se drogam. Tudo isso pode ser surpreendente, mas não basta para desviar o velho maldito de seus propósitos: Encontrar a mulher capaz de gerar o filho perfeito com que pretende eternizar seu sangue e desafiar os homens fracos, que acreditam nas coisas de Deus e da fé.
A metrópole é palco não somente de sua busca e torturas, mas também dos delírios de culpa com as vítimas de Zé do Caixão. No purgatório, conduzido pelo Mistificador (o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa), conhece a Morte e todos os tipos de torturas pelas quais são submetidas às almas perdidas.
Em sua jornada, o protagonista encontra muitos aliados e belas mulheres completamente à mercê de sua loucura. Aliás, ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO é o filme que mais traz “seguidores” do personagem. Nada como uma lenda pra colocar um vilão na boca do povo. Ao mesmo tempo, ele está na mira do Coronel Claudiomiro Pontes (numa inspirada atuação de Jece Valadão em seu último papel, finalizado poucos dias antes de morrer), que não suporta a idéia de ver esse assassino em série à solta, e o padre Eugênio (Milhen Cortaz, intenso, como sempre), cujo pai foi assassinado pelo coveiro.
Sem colocar em questão o mérito de cada proposta, o fato é que Zé as desenvolve muito bem, isto é: seu retorno se dá com mais sanguinolência e ainda mais imaginação. A beleza plástica do filme (a fotografia de José Roberto Eliezer não trai o encanto popular dos primeiros Zé do Caixão) se impõe seqüência após seqüência. E cenas como a transa com a menina coberta de sangue mereciam estar em qualquer antologia do gênero. Zé do Caixão não esquenta, em todo caso, com esses detalhes: vai tecendo seu mundo de horrores e se firmando de uma vez por todas como um dos maiores personagens do cinema brasileiro.
Spoiler Rating: 78
LBC Rating: ~
Por Georgia Nicolau (Revista de Cinema) e Inácio Araújo (Folha de São Paulo)
4 Comments, Comment or Ping
Vinícius P.
Geralmente não me interesso por esse tipo de filme, mas sempre gostei dos trabalhos do “Zé do Caixão”. Espero que esse “Encarnação do Demônio” seja seu grande retorno.
Aug 10th, 2008
Kamila
Assim como Vinícius, não me interesso por este tipo de filme. Se assistir, vai ser mesmo só por causa do Zé do Caixão.
Aug 10th, 2008
Gustavo H.R.
Esse vai servir de senha de entrada para conhecer o cinema de Mojica. Pena que não estreou bem, mesmo com todos elogios. Tomara que aumentem um pouco as cópias, senão não chega no interior.
Aug 16th, 2008
Lucas Smitt
Gostaria que houvesse também a exibição de “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins, esse filme levou 7 Prêmios incluindo Melhor Filme no Festival de Paulínia,e depois do sucesso em Paulínia e em várias pré estréias pelo Brasil à fora, “Encarnação do Demônio” conquista a Europa em diversos festivais como o de Veneza e o MOTELx- Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.
Outubro será o retorno ao Cine Fantástico y de Terror Sitges onde o cineasta já foi premiado
Faltou a exibição do filme também no Festival do Rio
~+~+~+~+~
Sep 22nd, 2008
Reply to “Encarnação do Demônio”