Claude Chabrol sempre foi um amante da caricatura. Alternando desde o começo de sua carreira entre retratos em profundidade e linhas aberrantes da superfície, Chabrol desenha ainda e sempre sua comédia humana.
Em UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS, o diretor trabalha com atores mais famosos por seu valor como imagem do que pela abrangência e sutileza de seus dotes dramáticos, e o casting é perfeito para realizar seu filme mais desavergonhadamente zombeteiro, mais mordaz dos últimos anos.
A tal garota do título é a bela Gabrielle (Ludivine Sagnier, de CANÇÕES DE AMOR), a atraente “moça do tempo” de um canal de televisão local. Quase que simultaneamente, ela arrebata dois corações. O primeiro é do famoso escritor sessentão Charles Saint-Denis (François Berléand, de A COMÉDIA DO PODER), um homem estável, rico, bem casado e resolvido na vida. E o outro é do jovem herdeiro Gaudens (Benoît Magimel, de RIOS VERMELHOS), também milionário, porém mimado e voluntarioso, que parece ter saído diretamente de algum filme francês dos anos 60.
Chabrol nos joga neste turbilhão de paixões sem aviso prévio. Os fatos, cada vez mais angustiantes e caminhando para a tragédia, vão se desenrolando na tela com uma naturalidade espantosa, como que pegando de surpresa não apenas o público como também os próprios personagens.
Quase todo filme de Chabrol pode ser interpretado como uma sátira, mas UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS não dá muito espaço para que não se veja o filme de outra forma. Para além dos efeitos de imagem dos personagens, a caracterização coloca os personagens freqüentemente em ridículo, pelo excesso de pompa dado à situações, pelo exagero das circunstâncias, por olhares libidinosos fora de lugar, mas acima de tudo porque o filme faz questão de jamais nos mostrar por que motivos os personagens são movidos pelas paixões que os dominam.
Chabrol os observa sua maneira: Com um sorriso, à distância, mais irônico do que cruel, aproximando-se dos personagens com suavidade antes de, com um golpe, expor-lhe as fraquezas, e evocando, enfim, o grande cinema clássico para melhor afirmar a atualidade do olhar. É um filme de obra, e essa obra continua, coerente, agradabilíssima e nada preocupada em impressionar ou perseguir a moda.
Spoiler Rating: 77
LBC Rating: ~
Por Celso Sabadin (Cineclick), Inácio Araújo (Folha de São Paulo) & Ruy Gardnier (Contracampo)
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