
Dá para fazer um filme sobre mulheres assistindo a um longa-metragem no cinema, sem que se veja nenhuma cena que passa na tela, só com as imagens dos rostos e suas reações? Se você for Abbas Kiarostami, dá. O cineasta iraniano apresentou em Veneza, fora de competição, seu mais novo trabalho, SHIRIN.
“Tenho mais interesse nos fãs assistindo a um jogo de futebol do que no jogo em si. Nenhum trabalho ou espetáculo pode existir sem o público. Nada permanece a não ser o que permanece na mente do espectador, por isso o espectador é tão importante”, disse o diretor em coletiva de imprensa.
Ele chamou um número grande de atrizes iranianas para participar. “Cada uma tinha cinco minutos na frente da câmera para atuar. No dia em que filmamos, não sabíamos qual história se passaria na tela, as mulheres não sabiam o que assistiriam”, contou. “Nós tínhamos as cadeiras, a tela branca, e elas precisavam se concentrar em três pontos e pensar em algo especial”, completou. No total, foram 113 mulheres - a única não iraniana é Juliette Binoche, que aparece usando o xador (véu).
Kiarostami levou seis meses para juntar tudo - e escolher a história da princesa Shirin para colocar na tela. Shirin era uma princesa da Armênia que se apaixonou por um príncipe persa, uma história de amor impossível bastante popular no Irã. “Esse tipo de melodrama não sai de moda, é sempre pertinente”, disse ele.
Mas, para ele, mesmo que não se ouvissem os diálogos e a música, isso não atrapalharia em nada. “Este é meu filme mais cinematográfico. Todos os personagens olham para um ponto na tela e os espectadores também são convidados a olhar para um único ponto. Tudo o que deveria estar fora do quadro está fora do quadro”, afirmou. O filme emociona não por essa história melodramática, mas pelos sentimentos que passam nos olhos e nos gestos daquelas mulheres.
“Obviamente, fiquei muito curioso para saber em que essas mulheres estavam pensando olhando esses 3 pontos”, disse o cineasta. Conhecido por usar a realidade em seus filmes, sem muitos artifícios, ele foi confrontado por ter pedido às atrizes para atuar e respondeu: “Dos cinco minutos que cada uma teve, há dois ou três de atuação. Depois elas entraram em suas próprias viagens, e foram esses os momentos que usamos. Para mim, foram momentos íntimos com a câmera. E foi fascinante estar olhando em momentos privados, como se olhasse pelo buraco da fechadura”.
SHIRIN é uma radical experiência de hors champ (fora do campo). De certa forma, o filme é reflexão sobre o poder mobilizador da arte. De outra, é também um estudo sobre a capacidade expressiva do rosto humano. As atrizes interpretam com seus olhos, com seus músculos faciais, com suas bocas, e fazem com que imaginemos o que estão vendo, e do qual só temos o som - os diálogos, a música, o ruído das patas dos cavalos, o choque das espadas. Sim, porque se trata de uma história de amor e aventura, que leva nossas protagonistas ao medo, à esperança, às lágrimas, à reflexão. É genial. E passado o momento de estranheza de vermos na tela apenas rostos e os ruídos de uma peça que não vemos, é possível meditar sobre essa arte do cinema, que é feita do visível, mas também do invisível - por mais que esse fato pareça alheio a uma sensibilidade do explícito, como a nossa.
Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~
Por Mariane Morisawa (Grupo UOL) & Luiz Zanin Oricchio (Grupo Estado)
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