ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, o longa de Fernando Meirelles exibido em Toronto, não é exatamente o mesmo ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA com que o diretor abriu o Festival de Cannes, em 14 de maio.

Meirelles modificou o filme, após o festival, onde sua versão para o livro homônimo do Nobel de Literatura português José Saramago recebeu mais críticas severas do que favoráveis.

A principal mudança é a subtração da narração em “off” (com a voz superposta às imagens) feita pelo personagem do velho com a venda (Danny Glover). Por ser um narrador onisciente, o velho com a venda é tido como alter ego de Saramago na trama sobre uma epidemia de cegueira que atinge toda a população, exceto a mulher do médico, interpretada pela norte-americana Julianne Moore. A narração descrevia sobretudo os sentimentos e intenções da mulher na segunda parte da história, em que os personagens estão encarcerados.

“Foi uma decisão dura de se tomar, mas achei que ficava melhor sem a narração”, afirma Meirelles, que saiu de Cannes “com essa pulga atrás da orelha, achando que a narração estava explicando, atrapalhando”.

O diretor consultou Saramago sobre a mudança. Foi desaconselhado a fazê-la. O escritor viu o filme em sessão privada em Lisboa, três dias após a estréia no Festival de Cannes.

De volta ao Brasil, no entanto, o cineasta reviu diversas vezes o filme, “testando-o com e sem a narração”. Optou por eliminá-la, mas não por inteiro. Três trechos foram mantidos. Nos pontos em que a locução foi suprimida, as cenas foram ligeiramente encurtadas.

Outra mudança foi o acréscimo de uma cena envolvendo o ladrão, vivido por Don Mckellar, que é também roteirista do filme, e o primeiro personagem a ficar cego (Yusuke Iseya).

Na versão exibida em Cannes, o ladrão sumia com o carro do cego, abandonando-o no meio da rua. Os dois só voltavam a se encontrar no “hospital” improvisado pelo governo.

A cena acrescentada mostra o ladrão retornando ao encontro do cego e o acompanhando no caminho do elevador até seu apartamento. O modo como o cego se desembaraça da presença do ladrão e aguarda a chegada da mulher também foi integrado à nova versão.

Em sessões-teste com público realizadas antes de o filme ter seu primeiro corte “final”, as cenas de estupro foram as mais criticadas. Meirelles suavizou-as, de acordo com o desejo dos espectadores.

“Senti que aquilo desconectava o espectador. A partir daquele momento, ele ficava contra o filme”, diz. Para a estréia nos cinemas, o diretor fez outra alteração nessas cenas, intensificando sua iluminação.

Na projeção em Cannes, o cineasta achou que a imagem estava escurecida demais, o que dificultava ao espectador identificar o grande vilão desta passagem, interpretado pelo mexicano Gael García Bernal.

O impacto das modificações na duração total do longa é de apenas um minuto – saltou de 120 para 121 minutos.

O filme “ficou mais simples” com as mudanças, na opinião de Meirelles. “Mas, se eu for ver de novo, vou ficar mudando. A solução é nunca mais assistir.”

A recepção do público em Toronto, a exemplo de Cannes, foi novamente calorosa. O filme foi muito aplaudido.

Por Silvana Arantes (Folha de São Paulo)

This entry was posted on Monday, September 8th, 2008 at 11:01 pm.
Categories: FESTIVAIS.

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  1. Espero mesmo que essas alterações façam com que “Ensaio sobre a Cegueira” tenha uma recepção melhor. Isso é o que todos desejam para mais um sucesso internacional do Meirelles.

  2. Li textos de jornalistas que assistiram o filme em Cannes e que aplaudiram o fato de que a narração em off de “Ensaio Sobre a Cegueira” foi tirada do filme. Eu estou bastante ansiosa para assistir ao longa.

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