Em LINHA DE PASSE, o terceiro longa que rodam em parceria, Walter Salles e Daniela Thomas combinam futebol, religião e subemprego em torno de uma família disfuncional que metaforiza todo um país sem pai. Treze anos após a desesperança dominante na estréia da colaboração, em TERRA ESTRANGEIRA, matizam, contudo, o ceticismo quanto ao futuro possível da juventude brasileira.

Não que sobre espaço para qualquer euforia naquele cenário central de uma pobre casa da periferia de São Paulo. Cleuza, a matriarca sempre grávida, balança no emprego de empregada. Seus quatro filhos tampouco começam o filme com rumo traçado.

Dario tenta se profissionalizar no futebol. Dênis ganha uns trocados como motoboy. Dinho é frentista de posto de gasolina, mas seu coração está mesmo na igreja evangélica. Tudo o que interessa ao garoto Reginaldo é, nas corridas de ônibus em que passa o dia, encontrar no motorista o pai cuja identidade a mãe lhe oculta.

Salles e Thomas conseguem imprimir incrível homogeneidade a um grupo de intérpretes de origens distintas e quase sem experiência em cinema. Seus personagens têm rara consistência e credibilidade, o que poderia ter agilizado o desenvolvimento da primeira hora do filme.

LINHA DE PASSE confirma que o cinema de Salles se torna mais cru e solto quando oxigenado pela parceria com Thomas. É, digamos, mais Rossellini e menos Antonioni. O diálogo com a realidade sempre alimenta a obra de Salles, mas Thomas parece funcionar como um fio-terra que depura ao essencial os dramas que encenam juntos. Aqui, até as cenas ficcionais de futebol convencem.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: ~

Por Amir Labaki (Agência Folha)

This entry was posted on Monday, September 8th, 2008 at 1:37 am.
Categories: FILMES.

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  1. Fiquei muito animada com a recepção de “Linha de Passe” em Cannes. Sei que ainda é cedo para dizer, mas espero que o filme seja um dos concorrentes mais fortes à Palma de Ouro!

  2. Assim como a Kamila, acho que “Linha de Passe” é um dos concorrentes mais fortes ao prêmio principal do Festival. Além das críticas positivas, foi o mais aplaudido até o momento e tem um tema que deve agradar ao júri presidido por Sean Penn. Nesse ano acho complicado o Brasil não ser lembrado na premiação de Cannes.

  3. Bruna Ventura

    Achei que “Linha de passe” usou muitos lugares-comuns e frustrou minhas expectativas. O país do futebol, da religiosidade e sem pai é mais que um clichê, a menos que se encontre uma forma inovadora de contar a mesma história, o que não ocorre nessa espécie de ensaio sem fim, ainda por concluir.

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