GARAPA foi exibido em Premiere Mundial em Berlim com a sala lotada… O resultado, ao final da exibição foi um silêncio tumular. Um verdadeiro mal-estar, semblantes carregados, olhares desviados e os aplausos, bem… Os aplausos foram tímidos. Como se aplaudir o filme de José Padilha fosse aplaudir a miséria em si.

GARAPA não é um filme fácil e, menos ainda, agradável. O que se vê na tela, em preto e branco granulado, som direto, câmera na mão, é a pura realidade. Um fato que, infelizmente, não é exclusivo do Brasil: Segundo dados da ONU, um em cada 6,5 habitantes do mundo é subnutrido.

O diretor brasileiro, documentarista de formação, acompanha três famílias sujeitas à fome no Nordeste brasileiro e encerra a fita com a estimativa de que, durante o tempo da sessão, “1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor do mundo”.

Garapa é a mistura de água e açúcar que estes sertanejos do Ceará dão aos filhos em vez de leite. Porque não há leite para lhes dar; aliás, não é só leite que não há. Não há comida e a pouca que há é para os filhos (os pais muitas vezes não comem nada), não há emprego, não há dinheiro, não há modo de ganhar a vida, não há absolutamente nada a não ser a ajuda da assistência social e dos programas governamentais contra a pobreza.

E a sua estilização visual – o preto e branco manuseado do cinéma-vérité, mas também as texturas do Cinema Novo brasileiro têm um efeito paradoxal: Evita a exploração gratuita da miséria ao mesmo tempo que elimina qualquer elemento supérfluo, força-nos a olhar para essa gente como gente de carne e osso prisioneira de um cotidiano sem luz, sem Sol, sem futuro. E nunca, mas nunca, as filma com condescendência nem como alienígenas. Mas, apenas, como gente. Gente que tem fome.

Spoiler Rating: 84
LBC Rating: ~

Por Orlando Margarido (Portal Terra), Mike Collett-White (Reuters), Luis Carlos Merten (Grupo Estado) & Jorge Mourinha (Público PT)

This entry was posted on Saturday, May 30th, 2009 at 8:48 am.
Categories: FILMES.

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  1. O mal-estar da platéia foi por causa da qualidade do filme ou por causa do roteiro do documentário, que mostra essa situação difícil vivida pelas famílias sujeitas à fome no Nordeste??

  2. Aposto que não deve ser um filme fácil mesmo, é um tema muito difícil de ser tratado (mesmo que comum à produção nacional). Aguardo esse novo filme do José Padilha!

  3. Mauricio

    Foi pela experiência imersiva que o filme, proporcionou, Kamila. A miséria é jogada na cara do espectador.

  4. torres

    é triste pra não dizer chocante!!!
    falo de cadeira, pois fui criado na zona rural desta mesma região.
    tratando-se de um documentário, não cabe esta sugestão, a seguir,(mas fica o registro) por que no desfecho do mesmo,o autor/diretor,não apontaria para uma, ou mais soluçao do problema,seja ela de cunho político/social??, ou ainda uma saída encabeçada pela mobilização de uma sociedade organizada?? muitos querem ajudar, mais como?? qual é a saída??? fica aqui à pergunta no ar!!!

  5. Diuk Mourao

    Quando estamos com fome, vemos as coisas em preto e branco com muita granulação.

  6. José Bardella

    Tento me colocar no lugar de um político ou de uma pessoa qualquer envolvida em política, que tem por obrigação zelar pelo bem estar coletivo e que ao invés disso só pensa nele mesmo e na sa corja, enriquecendo ilicitamente com dinheiro público assistindo um filme destes. O problema é que eles devem achar que é ficção.

  7. Marisa

    Seria cinismo de minha parte sugerir que o pessoal que esteve em contato com as famílias passassem as informações para o governo federal, tão amigo de carentes do norte e as incluísse nas Bolsa Fome, Bolsa Água, sei lá, para que pelo menos agora eles tenham o que comer e não terminem como as famílias que ficarão desconhecidas do grande público? Deve-se levá-los ao lugar pertinente e cadastrá-los e esperar que nenhum deputado ou senador roube as cestas deles.

  8. Leonardo

    Assisti o documentário em uma pré-exibição no unibanco arteplex na praia de botafogo no Rio, é algo silenciador e revoltante. A fome na realidade de pessoas que somadas em todo o mundo formam um contigente inimaginável. Para assisti-lo é necessário preparo psicológico.

Reply to “Garapa”


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