No auge de suas carreiras, Julia Roberts e Clive Owen pode repetir a química de Katharine Hepburn e Spencer Tracy (ou Rosalind Russell e Cary Grant) depois de DUPLICIDADE, o novo thriller high-tech romântico de Tony Gilroy. Um filme feito para provocar e entreter um público maduro e inteligente.
Muitos cineastas tentaram clonar o efeito genial de Hepburn e Tracy nas telas. Atores que enchiam os olhos em comédias screwball da década de 40 e 50 (A COSTELA DE ADÃO, A MULHER ABSOLUTA), usualmente escritas por Ruth Gordon e Garson Kanin e dirigidas por George Cukor. De fato, a própria Roberts ensaiou várias comedias desse gênero, mas nada de sucesso, como, por exemplo, ADORO PROBLEMAS, com Nick Nolte.
Mas Tony Gilroy, depois de um sucedido CONDUTA DE RISCO resolve atualizar e expandir, com êxito, as comédia de desavenças e casamentos (e reconciliações), adicionando ao texto, uma narrativa mais atual acerca de espiões em corporações multinacionais, num contexto político mais explícito, na qual coloca sua aventura rapidamente a correr pelo globo.
O subgênero remonta ao clássico de 1934, A CEIA DOS ACUSADOS, que lançou um ciclo inteiro de filmes com Myrna Loy e Dick Powell. Mais recentemente, houve a fita dos irmãos Coen, O AMOR CUSTA CARO, uma comédia de divorcio semi-afetiva com George Clooney e Catherine Zeta-Jones e depois SR. E SRA. SMITH, uma violenta screwball estrelando Brad Pitt e Angelina Jolie, como um casal de assassinos contratados para matar um ao outro. Mas de todos os exemplos acima, DUPLICIDADE é, de longe, o mais esperto, encantador e cativante que trabalha ao mesmo tempo como techno-thriller e romance.
Roberts é a agente da CIA, Claire Stenwick (um tributo a Barbara Stanwick) e Clive Owen é o agente da MI6, Ray Kova. Uma dupla romântica que deixa o mundo da inteligência governamental, para se dedicar a um lucrativo esquema, fruto da Guerra fria entre duas corporações multinacionais do ramo de cosméticos.
A premissa é simples: Garantir primeiro a formula secreta que trará fortuna à empresa que registrar a patente primeiro. E para seus respectivos empregadores, dois industriais tirânicos, Howard Tully (Tom Wilkinson) e o bucaneiro Dick Garsik (Paul Gimatti), nada é impossível. Literalmente.
O roteiro de Gilroy se beneficia de forma intricada, numa estrutura multipolarizada. Apresenta Claire e Ray através de uma série de flashbacks, que remontam seu (complicado) relacionamento desde uma longínqua Dubai em 2003 até a Manhattan de hoje. A principio, Ray é apenas alvo de Claire. Ela o seduz para ter acesso e roubar uns códigos de Defesa egípcios.
No contraponto, Gilroy apresenta outro casal incompatível. No segundo escalão, ele confronta Howard Tully, o chefe da Burkett & Randle com Dick Garsik, o chefe da Omnikrom, como duas forças do mundo farmacêutico, cuja ambição e ódio para o concorrente é correspondida apenas por seus egos e ganância. Em vez da guerra fria entre dois países, Gilroy se aplica ao conceito dramático de duas sociedades gigantes cujo quartel-general está na elegante Manhattan.
É nesse cenário que a narrativa considera ambos os agentes como protagonistas de uma batalha repleta de espiões duplos e amor clandestino, onde o desafio maior é decidir o quanto podem confiar uns nos outros.
DUPLICIDADE é um jogo de espelho, repleto de reflexos e leituras: Uma comédia romântica no mundo da espionagem industrial, um suspense cômico cujo pano de fundo é o amor — ou um filme bastante inteligente, que brinca de se levar a sério. Qualquer que seja a opção, Tony Gilroy mostra que ainda há vida inteligente respirando em Hollywood.
Spoiler Rating: 71
LBC Rating: ~
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Vinícius P.
O Tony Gilroy mostrou ser um diretor muito interessante com “Conduta de Risco” e parece seguir o mesmo caminho aqui, sem falar que a dupla principal chama em muito a atenção.
Jun 7th, 2009
Kamila
Mais um filme que eu quero assistir e fica de fora da lista de estreias de minha cidade.
Jun 11th, 2009
Reply to “Duplicidade”