HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE, a sexta aventura da popular franquia “Harry Potter” que começou em 2001 e deve terminar em 2011, é um dos episódios mais tensos e sombrios da saga. David Yates, que também dirigiu HARRY POTTER E A ORDEM DO FENIX, fez o seu melhor e ousou: Misturou diferentes ingredientes da série e usou pequenos esquetes de suspense, humor, magia, e efeitos especiais.
O resultado é uma excelente adaptação do livro de J.K. Rowling. Uma narrativa enxuta, bem filmada e interpretada, mas dramaticamente desigual. Uma falta de intensidade que torna o filme longo demais (152 minutos) para uma espécie de anticlímax final. É como se fosse um filme de passagem. Um conto de ligação para o derradeiro final. Não o rito de passagem da infância para a vida adulta, tema subjacente de toda a série, mas um momento de transição entre um episódio importante (A ORDEM DO FÊNIX) e outros dois conclusivos (AS RELÍQUIAS DA MORTE).
O roteirista Steve Kloves, que trabalhou nos quatro primeiros HARRY POTTERs, retorna à saga. O cenário aqui é um conto aberto, um momento tenso no mundo bruxo, precipitado pelo regresso de Lord Voldemort da clandestinidade e pelo avanço dos comensais da morte que, a sombra do Lorde das Trevas, atacam a vontade. Até mesmo o mundo “trouxa” não é insensível ao seu terror.
Os 14 minutos iniciais são eletrizantes, repleto de nuvens cinzentas e pressagas que se desenham por trás da marca Warner, produtora do filme (e da série toda). Logo em seguida, começa o ataque das forças de Voldemort. A câmera acompanha, num movimento vertiginoso, os raios negros lançados sobre Londres e como numa montanha russa, o público acompanha a câmera na sua louca corrida por ruas e becos. A destruição da ponte pênsil projeta o espectador no meio das pessoas que correm, enquanto o aço cede antes do desabamento.
É então que aparece Harry Potter (Daniel Radcliffe) numa cafeteria de metrô, mantendo um olho no Diário Profeta e outro na sex garçonete, que imediatamente demonstra interesse. No entanto, antes de Harry investir no potencial encontro, Alvo Dumbledore (Michael Gambon) aparece na plataforma de trens e o convoca para uma misteriosa missão.
O destino é o vilarejo de Budleigh Babberton, na casa de uma família trouxa, onde o velho Horácio Slughorn (Jim Broadbent) se esconde. O popular Professor de Poções de Hogwarts está agora aposentado, mas goza de velhas recordações de seus melhores estudantes que se tornaram grandes bruxos, incluindo Tom Riddle que demonstrou um interesse peculiar pela Arte das Trevas. Aliás, há uma lembrança crucial para o desenrolar da luta contra o Lorde Voldemort e sua aparente imortalidade. Descobrir essa memoria, a chave vital que contem uma preciosa informação é essencial. Uma missão naturalmente cabida à Potter.

O ENIGMA DO PRÍNCÍPE, o livro, é o capítulo que revela toda a biografia do Lorde das Trevas. Seu passado. Sua família. Suas motivações. O filme enxugou tudo em dois breves flashbacks que comprometem um pouco a magnitude da estória. Não é um erro, nem deve ser interpretado como tal, mas sim uma opção do próprio diretor que preferiu contrabalancear a narrativa com certos alívios cômicos. Um humor que surge naturalmente das desventuras românticas da adolescência.
O amor corre solto em Hogwarts e os jovens ganham agora atrativos e interesses, jamais abordados na série. Todos os principais personagens sentem os efeitos dos hormônios e sentimentos hesitantes. A longa amizade entre Harry e Gina Weasley (Bonnie Wright) torna-se mais profunda e significativa e Rony (Rupert Grint) testa o ciúme de Hermione (Emma Watson) num meloso relacionamento com Lilá Brown. Há ainda o contrabando de poções do amor…
Somente Draco Malfoy (Tom Felton) fica indiferente aos beijos e flores. Ele tem um objetivo mais importante que envolve um objeto misterioso, a Sala Precisa e o tal “enigma do príncipe” que é revelado na última hora, desvelada por uma longa cena entre Harry Potter e Dumbledore. A relação, aqui, extrapola os limites entre professor e aluno, os limites da própria amizade e torna-se quase fraternal. Um amor que torna a responsabilidade maior, diante dos perigos físicos e emocionais que acabam por testar (mais ainda) a personalidade de Potter. É destas sequências, que tratam da perda e mortalidade, que O ENIGMA DO PRINCIPE, em tema e visual, flerta com a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS, de Peter Jackson, embora sem a seriedade temática e a profundidade moral desse ultimo.
O final projeta Hogwarts e o mundo bruxo num período de sombras. Tudo é esperado, mas também renovado. O visual novo, muito mais opressivo e dark é cortesia do fotógrafo Bruno Delbonnel (dos filmes franceses ETERNO AMOR e O FABULOSO DESTINO DE AMELIE POULAIN). Sua fotografia é escura e claustrofóbica, cuja intenção é promover um clima eterno de vigília.
HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE mostra que bem e mal não são absolutos e que entre eles há toda uma zona cinzenta. O transe do mundo é um fundo importante, mas, no primeiro plano, Harry e seus amigos estão passando pelo rito de passagem, fazendo suas escolhas. E é de escolhas morais que trata a série do pequeno bruxo. Na fantasia, projetam-se preocupações que são reais, aqui e agora, de qualquer adolescente. O aflorar da libido, o primeiro beijo, a dor da rejeição. Harry cresce com seu público jovem. Não é à toa que a série faz sucesso.
Spoiler Rating: 88
LBC Rating: ~

7 Comments, Comment or Ping
shyrlei marilia da silva
Amo de PAIXÃO, Harry Potter. Tenho todos os filmes, mas ñ tenho dinheiro suficiente para comprar um original. Se Deus quiser, eu vou ver o lindo Harry Potter que deve ter muito sucesso…
Jul 18th, 2009
Luis Eduardo
ADOREI A CRITICA
Jul 18th, 2009
Victor Black
Espero Oscars desse filme!!
Aug 23rd, 2009
Mauricio
Tem chances de ser indicado em Melhor Fotografia, Victor
Aug 24th, 2009
/joão
Relíquias Macabras? o título origial em PT_BR é Relíquias da Morte!
Dec 11th, 2009
Maurício
Título corrigido, João. Valeu!
Dec 12th, 2009
juliene
adoro d+
Jul 15th, 2011
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