Pedro Almodóvar regressa com sua musa favorita, Penélope Cruz, em LOS ABRAZOS ROTOS. Um projeto que se insinua com cinema noir, melodrama e comédia durante um enredo que conta a história de dois casais, os seus amores e desamores. São paixões intensas e cruzadas, donde explode ciúme, vingança e abusos terríveis. Uma estória dominada pela fatalidade e a culpa. Um filme sobre amor e, em parte, um filme sobre filmes.

Sua atmosfera se remete aos thrillers americanos dos anos 50. Essas películas cheias de decepções, traições e segredos obscuros, onde surge apenas infelicidade. Em uma das cenas, um dos personagens distribui sobre a mesa várias fotografias. São aleatórias como seu mundo fragmentado e caótico. Imagens do passado. Um lugar sem tempo que não cabe ordenar. O filme de Almodóvar é um reflexo dessa mesa, repleta de imagens desprezadas. Suas cenas se sucedem umas as outras sem que haja relação de casualidade. Fragmentos isolados que falam do profundo sentimento da vida.

O diretor confessou que o argumento lhe veio ao abordar dois jovens abraçados na Praia de Lanzarote. “Quem eram? Porque se abraçavam?” Seu roteiro tenta explicar essas perguntas. Num momento, cita-se uma cena de VIAGGIO IN ITALIA, de Roberto Rossellini. Seus personagens, o Sr. e Sra. Joyce, que estão vivendo em profunda crise, visitam Pompéia e um guia lhes mostra corpos unidos, solidificados pela lava. Jovens surpreendidos pela erupção do vulcão e a Sra. Joyce (Ingrid Bergman) não consegue segurar suas lagrimas quando vê os amantes abraçados, saudosista de velhos tempos e, principalmente, de amor.

O filme fala justamente desses abraços. Espontâneos. Frouxos. Rotos. “Há um tempo para cada coisa e um momento para fazê-la sob o céu. Um momento de nascer e um momento de morrer. Um momento de semear e outro de colher o campo cultivado. Um momento de abraçar e outro de separar-se”, dizia o Eclesiastes

Almodóvar fala também de sua paixão pelo cinema e, certamente, seu filme está repleto de numerosas citações. São filmes e diretores queridos: VIAGGIO IN ITALIA, A TORTURA DO MEDO (Michael Powell), ASCENSOR PARA O CADAFALSO (Louis Malle), PÉRFIDA (William Wyler)… LOS ABRAZOS ROTOS é um tributo ao cinema, não de um cinéfilo, mas de um verdadeiro amante e, portanto, uma mensagem subliminar: Como se Almodóvar nós dissesse que o cinema – Os filmes que amamos – nos alimentam e prolongam nossa vida.

Conseqüentemente, seu protagonista é um diretor de cinema que insiste em terminar um filme que talvez ninguém veja e sofre a vingança do milionário ofendido que trata de destruir essa fita. A idéia é magnífica, afinal esse é o pior pesadelo de um diretor: Que seu filme seja a montagem das piores escolhas. É uma vingança terrível e tão comum para Almodóvar que sempre enfocou a arte como salvação em sua filmografia.

E a arte aqui é escrever, interpretar e dirigir uma estória bem contada. Buscar empatia, cumplicidade ou deleite. A idéia do diretor cego não é irrelevante. A cegueira é o símbolo de outro tipo de visão. Uma metáfora para o cinema. É o momento do espectador sentar-se numa sala escura e se abrir à outra vida projetada na tela. O cinema, para Almodóvar, é um período de encontro à morte. Um ato de redenção. Uma fuga à crueldade da vida.

E então o filme termina numa cena arrebatadora e, porque não, inesperada. Voltamos à comédia, afinal todos desejamos um final feliz. Todos queremos que nossas vidas, inevitavelmente trágica, se torne uma comédia, como se fosse um cartoon de TOM & JERRY onde depois de tantas desventuras, gato e rato seguem adiante.

Na tragédia tudo é irremediável, visto que na comedia tudo é suscetível e começa outra vez. A morte pertence ao mundo da tragédia; os fantasmas à comédia. É bonito porque nosso coração demanda uma estória de amor e o amor pede sempre uma cena de comédia para viver.

Almodóvar nos fala isso. Nos grita isso num tênue abraço visual em que nada é irremediável, nem sequer a morte. E seu filme recorda, então uma viagem a Pompéia, onde os jovens amantes de Rossellini seguem abraçados numa casa de lava.

Spoiler Rating: 86
LBC Rating: ~

This entry was posted on Saturday, October 10th, 2009 at 2:41 pm.
Categories: FILMES.

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