No início de SHERLOCK HOLMES, o famoso detetive demonstra seus poderes de raciocínio de uma forma jamais sonhada por seu criador, Arthur Conan Doyle. Observando um bandido suspeito de um crime horrível em uma igreja mal iluminada, Holmes calcula apenas a forma de surpreender o homem, desarmá-lo e vencê-lo. O público segue seu fluxo de pensamento através de slow-motion, observando como as leis da anatomia e física serão usadas para arrebentar ossos, moer órgãos e transformar carne em polpa. Então, tê-lo visto uma vez diagramado na tela, vemos tudo de novo, com mais barulho, em tempo real. Elementar!

Mas não tão elementar para os verdadeiros fãs do personagem que chegou à cultura pop em 1887 e, desde então, adaptou-se a várias mudanças de estilo sem nunca esquecer seu cachimbo, seu violino, o celibato e sua crença na elegância funcional do velho chapéu de feltro. A “reinvenção” do personagem às mãos de Guy Ritchie é nada menos que um sacrilégio. Por uma razão simples: Essa estória original que lança Holmes e seu companheiro Watson nas pegadas de um nobre dedicado à magia negra é uma aventura esquizofrênica que, na sua ânsia de agradar um público mais jovem, acaba por ser um Frankenstein criado em função do “marketing” mais do que uma tentativa sincera de atualizar o personagem.

É esquisito ver um personagem dedicado à dedução e inteligência optar pelo boxe… Ou atirado em uma sequência de efeitos visuais centrada na luta com um colosso musculado francês num estaleiro com um navio à beira de ser lançado ao mar. É americano demais… Hollywood clássico! Simplesmente não ajuda nada que Ritchie dirija a coisa como se estivesse a fazer uma comédia de ação moderna, com diálogo de sitcom e cenas de pancadaria a intervalos regulares.

É claro que a inteligência nunca foi prioridade nos interesses do cineasta. Seu objetivo primordial, realizado com sucesso em PORCOS E DIAMANTES e ROCK´N´ROLLA é ser “cool”. Ou seja, um cara legal fazendo filmes legais sobre personagens legais. Seu Sherlock Holmes é, enfim, um cara legal. Mas isso não é realmente um elogio.

Por outro lado, o estilo visual – uma esfumaçada, gordurosa e punk Londres vitoriana, cheia de fuligem e vísceras e dentes ruins e roupas de época – mostra algum talento inegável. Houve a inteligência de reter muitas das idiossincrasias e excentricidades do personagem original, que Robert Downey Jr. faz com truculência e respeito. Depois, há verdadeira química entre Downey Jr. e Jude Law como Watson, respeitando o “caderno de encargos” sem trair o espírito das histórias originais. E, finalmente, porque a coisa se mexe depressa e não chateia. Não deixa de ser um caça-níquel, mas caça-níquel por caça-níquel prefiro este a TRANSFORMERS.

Spoiler Rating: 73
LBC Rating: ~

Por A.O.Scott (The New York Times), Patrícia Tubella (El País) & Jorge Mourinha (Público PT)

This entry was posted on Saturday, January 9th, 2010 at 1:54 pm.
Categories: FILMES.

2 Comments, Comment or Ping

  1. Rodrigo Maia

    Realmente, o personagem de Downey Jr. está mais pra “Batman” que para “Sherlock”.

  2. Gabriel

    Sacrilégio foi você comparar a maestria inteligente de Sherlock com a futilidade de Transformers. Infeliz comentário!

Reply to “Sherlock Holmes”


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