Mais de 40 anos depois do auge de sua fama, Amelia (Giulietta Masina) e Pippo (Marcello Mastroianni) revivem velhos fantasmas em um último ato de sapateado, como GINGER E FRED, em um programa de variedades na televisão. A ocasião é um especial de Natal, que vai apresentar, entre outras coisas, um grupo de anões dançarinos de tango, um padre que levita, o mais famoso sequestrado da Itália, um bonito mafioso, um antigo oficial da marinha condecorado, o inventor das calcinhas comestíveis e uma vaca de 18 tetas, além dos sósias de Clark Gable, Marcel Proust e Rita Hayworth…
É, sobretudo, um show de nostalgia e burlesco. GINGER E FRED é o último espetáculo de cinema de Federico Fellini e uma inspirada obra-prima em vários aspectos e ocasiões. Uma paródia histérica da televisão italiana, que parece mergulhada num ambiente de LSD, mas uma profunda reflexão sobre a televisão como um universo completo em si mesmo, onde a imortalidade é um spot de três minutos de fama onde as sombras são mais reais que as próprias figuras que as produzem. “Somos fantasmas”, anuncia o Pippo de Mastroianni. ”Nós surgimos na escuridão e desaparecemos de novo.”
Tendo começado como um meio para entreter e informar a audiência, a televisão inverteu os papéis – o público existe para servir as necessidades do casting da televisão. Assim, é natural que a fita exiba as pessoas circulando nos bastidores do programa como verdadeiras almas aguardando o julgamento em uma era eletrônica de purgatório.
Como qualquer outro filme de Fellini, GINGER E FRED é genuíno. Segue uma própria lógica, que é a de um mago extravagante, cujos comentários nem sempre se encaixam nos truques que improvisa. O roteiro é, na verdade, um amálgama de dois filmes completamente diferentes de Fellini, um dos quais – o conto emocionalmente terno que reúne Pippo e Amelia lembra OS PALHAÇOS. Já ROMA inspirou a trupe de anões e outros desajustes bizarros presenciados por Masina e Mastroianni.
O casal está extraordinário e igualmente divertido e comovente: Masina como uma viúva, pragmática e elegante, que sai da aposentadoria para agradar seus netos e Mastroiani como um velho embriagado e mulherengo que aceita o trabalho porque precisa do dinheiro.
O filme não é bem claro sobre o grau e tipo de celebridade da dupla em seu apogeu. Às vezes, pode-se pensar que era um par “apenas” regular, mas se o fosse, porque seria lembrado depois de tanto tempo pelo programa? Em outras ocasiões, pode-se pensar que era uma dupla fantástica, mas é também evidente que a vida profissional de Amelia e Pippo sempre foi baseada na reprise do mesmo numero de sapateado entre Fred Astaire e Ginger Rogers. É, então, que Amelia e Pippo se tornam parte integrante do filme impressionista que os rodeia, em vez de apenas testemunhas…
GINGER E FRED é o melhor filme de Fellini e é soberbo quando Amelia, sozinha na cidade grande pela primeira vez em décadas, encontra-se em uma paisagem alienígena de ciclistas, travestis e outros tipos “showbizz”. Os momentos fellinianos se sucedem, deliciosos, até o grande e apreensivo clímax: A sequência de “Cheek to Cheek”, onde o casal se exibe triunfante – ela em seu reluzente vestido de noite e peruca loira que já viu melhores dias e ele ofegante em fraque de gala e cartola. Duas sombras esquecidas da década de 30. Finalmente Ginger e Fred estão juntos…
Spoiler Rating: 100
LBC Rating: ~

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