A maioria das feras que fungam e rugem e vagueiam e algazzarram em ONDE VIVEM OS MOSTROS, a belíssima adaptação de Spike Jonze do clássico infantil de Maurice Sendak, são peludos. Alguns possuem chifres. A maioria tem cauda e dentes afiados. Eles rosnam, uivam e às vezes roncam. Outro, coitado, tem o nariz ranhento, é pálido demais, pele lisa e olhos esbugalhados. Grandes demais para idade de menos. Essa fera é Max, o menino em traje de lobo que de noite nos guia através dos seus sonhos que, aliás, é o argumento do filme.
Max, interpretado pelo novato Max Records, é o personagem crucial de uma estória intensamente original e assombrada. Mérito de Spike Jonze que, depois de anos de produção, projeto e improbabilidades, fez de um filme em live-action baseado num gracioso livro ilustrado de 40 páginas, algumas sem quaisquer palavras, uma (enorme) surpresa. ONDE VIVEM OS MONSTROS assusta e encanta e deleita em grande parte porque o cineasta superou tudo o que já fez anteriormente e isso incluem QUERO SER JOHN MALKOVICK (1999) e ADAPTAÇÃO (2002). É, enfim, uma obra de arte que representa sua própria origem e, em alguns casos, até supera.
O livro, publicado em 1963, segue as aventuras de Max, um menino de seis anos (nove no filme), fantasiado de lobo que depois de uma travessura fica de castigo no quarto sem jantar. Quarto que magicamente se transforma em uma floresta povoada por feras gigantes, peludas e assustadoras que fazem dele o seu rei. Eventualmente a realidade o chama de volta para casa, para seu quarto e, talvez, uma ceia quentinha
Havia diferentes maneiras de (re)ler esse argumento, através de um prisma freudiano ou colonialista e, provavelmente, tantas maneiras de arruinar esta delicada história de uma criança solitária liberada por sua imaginação. Felizmente, Jonze, que escreveu o roteiro com Dave Eggers, não tentou ampliar, interpretar ou melhorar a história. Ao contrário, ele a expandiu muito delicadamente. O filme é ainda uma história sobre um menino, sua mãe, seu quarto, sua solidão e várias coisas selvagens imaginarias. Mas agora há novos detalhes e nuances que complementam o material do livro, como a irmã de Max, Claire (Pepita Emmerichs), cujos cabelos lisos e melancolia adolescente são espelhados por uma coisa selvagem chamada KW (dublada por Lauren Ambrose).
Max é uma tempestade sem aviso que se atira na estória, perseguindo seu cachorro. Filmado com câmera na mão, que mal consegue conter o garoto dentro do enquadramento, são cenas introdutórias, barulhentas e desorientadas, mas puramente divertidas. Depois, menino e filme se acalmam e se equilibram em cenas com Max sozinho e com sua irmã e mãe (Catherine Keener), um interlúdio que diz tudo o que você precisa saber sobre o menino e que anuncia tudo o que vai acontecer a seguir.
E são cenas dolorosamente íntimas e ternas. O cineasta, trabalhando com seu diretor de fotografia, Lance Acord, aproxima o olhar ao mundo de Max: Como ele constrói um iglu na rua, começa uma briga de bolas de neve com seus amigos e depois chora sozinho diante de seu iglu destruído. O mundo é cruel, as crianças também, lições que Max absorve através de lágrimas e dor. A ferida não cicatriza e ele explode na mãe. Ela urra de volta. E, então, como no homônimo conto de fadas – como todos os outros – ele navega para outro mundo, sem rumo e sozinho.
E então, eis a alma do livro – do filme: Os monstros!
Uma surpresa àqueles que esqueceram o original, com sua escuridão, linhas sombreadas, emoções aguçadas, dentes terríveis e garras terríveis. Embora o conceito permaneça intacto, os monstros de Jonze são mais meigos, aconchegantes, frutos de computação gráfica e de falas macias de James Gandolfini (Carol), Catherine O’Hara (Judith), Forest Whitaker (Ira), Paul Dano (Alexander) e Chris Cooper (Douglas).
Max os descobre. Introduções são feitas. Desconfianças trocadas. E no meio do esplendor de uma floresta primitiva, entre redemoinhos de ar, pétalas de rosa e flocos de neve, ele se torna um rei. É tudo muito novo (e assustador), mas também vagamente familiar, porque já foi visto antes. As birras, lágrimas e palavras de raiva dos primeiros 20 minutos de projeção ressurgem durante esse idílio, assim como as horas de vigília invadem nossos sonhos e a luta de bola de neve é reformulada com bolas de lama.
Muito permanece sem explicação nessa adaptação, incluindo a melancolia de Max, que paira sobre ele, sua família e os monstros como uma tempestade. Mas a infância tem seus segredos, mistérios, pequenos e grandes terrores. Quando um professor explica que o Sol vai morrer, o flash de horror no rosto do menino indica que ele entende que o Sol não será o único. Há outras razões: Talvez, um pai ausente, uma mãe distraída… Mas essa análise não é terapia e um dos prazeres do filme é sua recusa na explicação banal.
Pena que ONDE VIVEM OS MONSTROS gaste muito tempo adulando seus monstros. É nesse ponto que a energia do filme se esvai, apesar da trilha gloriosa de Carter Burwell e Karen O. É fato que Jonze ama seus monstros, mas você não precisa perder tanto tempo para adorá-los também. Mas isso é um pequeno senão diante de uma fita que muitas vezes ofusca em seus momentos mais silenciosos, como quando Max ajusta a vela de seu barco, e você intui sua coragem através do close-up dele olhando para o desconhecido. Então a visão muda abruptamente e você vê que o barco é simplesmente um cisco no meio da imensidão esmagadora. Essa é a condição humana, em duas imagens eloqüentes.
Spoiler Rating: 79
LBC Rating: ~
Por Manohla Dargis (The New York Times)

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bruno knott
Onde Vivem os Monstros não é amor a primeira vista, mas é profundo e belo como poucos filmes atuais.
79 é uma nota justa.
Jan 16th, 2010
Reply to “Onde Vivem os Monstros”