A FITA BRANCA (THE WHITE RIBBON), de Michael Haneke, impõe o tipo de respeito que sua filmografia normalmente inflige e, dessa vez, com amplas chances de atrair, inclusive, os detratores de sempre, que detestam o diretor e sua capacidade de desafiar a platéia com momentos extremos.

Seu novo filme não precisa de um fator choque, mas investe num mal-estar misterioso facilmente associável à obra de Roman Polanski dos anos 60. Haneke nos apresenta um filme de época, em preto e branco, com uma narrativa ascética e um rigor fotográfico que corresponde perfeitamente à aspereza de sua história.

A fita gira em torno de uma comunidade protestante de um pequeno vilarejo alemão, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial.A tal “fita branca” do título é imposta pelo pastor da região aos seus filhos adolescentes, como símbolo do ideal de pureza e a ingenuidade da infância.

Pureza e ingenuidade, no entanto, não são uma constante no cotidiano dos moradores, sacudidos por uma série de acontecimentos violentos: Há uma agressão perturbadora a um garoto com problemas mentais, a perseguição de um homem cujo nome talvez seja judeu (em nenhum momento isso é explicitado, ou anti-semitismo mencionado), um incêndio no celeiro, um acidente provocado de cavalo. Na ética local de medo e retaliações, ninguém sabe e ninguém viu, algo que chama a atenção do professor da escola (Christian Friedel), o narrador, que acredita que as crianças do lugar são a chave do mistério. Talvez estejam colocando em prática e ao pé da letra, os valores que recebem. Idéia que o perturba cada vez mais…

Há um flerte com o suspense. A imagem dos meninos e meninas sempre com a expressão vazia de que andaram fazendo alguma coisa, ou presentes em lugares onde não deveriam estar dá uma carga e tanto de mistério e ameaça, e não é difícil lembrar de A VILA DOS AMALDIÇOADOS, ficção científica inglesa (refilmada por John Carpenter em 1995) sobre crianças malévolas e loirinhas.

O próprio filme funciona como análise de uma pequena semente ao tratar do sistema repressivo de educação que alicerçou o nazismo. Um ensaio sobre o surgimento das diversas formas de terrorismo, a partir da premissa de que, quando se erige um absoluto como princípio, ele acaba se tornando desumano.

A FITA BRANCA é uma produção com textura fria e densa, quase irrespirável, que vai sedimentando camadas e camadas do bom cinema até formar, na contraposição da sofisticação dos planos e a podridão dos personagens, uma obra-prima de desolação. Sem dúvida, é o melhor filme de Haneke.

Spoiler Rating: 92
LBC Rating: ~

Por Kleber Mendonça Filho (Cinematório), Mateo Sancho Cardiel (EFE), James Mackenzie (Reuters), Silvana Arantes (Grupo Folha), Luiz Carlos Merten (Grupo Estado) & Agência AFP

This entry was posted on Saturday, February 13th, 2010 at 8:58 am.
Categories: FILMES.

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  1. Sem dúvida “A Fita Branca” é um dos melhores filmes da temporada, algo que não esperava já que nunca havia me encantado tanto pelo cinema do Haneke.

Reply to “A Fita Branca”


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