
Larry Gopnik é UM HOMEM SÉRIO. Uma pessoa íntegra, temente a Deus, cujo nome é trabalho. Ele vive em Minnesota e leciona física numa universidade. Mas na primavera de 1967, seu casamento está ruindo, o bar mitzvah de seu filho está se aproximando e mais um monte de coisas ruins estão para acontecer, por nenhuma razão aparente. No trabalho, é especializado em temas como o Paradoxo de Schrödinger ou o Princípio de Heisenberg – Idéias complexa e esotérica que pode ser resumida por um leigo, mais ou menos, como “Só Deus sabe!” Porque, na real, nem ousamos entender.
Larry, interpretado por um pontual e inexpressivo Michael Stuhlbarg, não é exatamente o temor à divindade que ele, como outros judeus devotos, chamam de Hashem (”nome” em hebraico). É que ele está confuso, sitiado, perplexo… O que Deus quer de nós? O que devemos esperar dele? Em uma estranha espiral de miséria operística, Larry obedientemente busca por pistas, respostas, sinais. Ele fala com sábios rabinos e ouve gravações de cantores famosos. O que ele encontra, aparte música assombrada e arquitetura sagrada monótona, é o silêncio, nonsense e – a partir dessa zona metafísica além da tela, onde o resto de nós está sentando assistindo – o riso.
“É de admirar que Deus escolha seus judeus”, mas é a consequência desastrosa dessa escolha que Joen & Ethan Coen captam de modo conveniente e perverso em seu UM HOMEM SÉRIO. Mais uma comédia negra, fatalista, que percorre por vários temas judaicos, culturais e metafísicos.
A fita começa com uma tela estreita, dramatizando em dialeto iídiche, um conto popular sobre um mestre “tzadik” (Fyvush Finkel) que pode ou não ser um dybbuk (Um homem justo que poderia ser uma espécie de espírito maligno). A história é ao mesmo tempo divertida e horrível, evidente e opaca. O mesmo poderia ser dito da maioria dos filmes dos irmãos Coen, em que a existência humana e a tentativa de encontrar sentido em coisas fúteis é, simplesmente, divertidas. (Para o público, pelo menos…). Lembra um pouco a obsessão pelo caos de Woody Allen, mas os irmãos Coen são compulsivos e rigorosamente formalistas. Como se estivessem tentando, ao mesmo tempo, expor e compensar a falta de sentido da vida.
Então uma questão se coloca perante UM HOMEM SÉRIO: É caso para o ateísmo ou olhar o mundo de um jeito divino? Estão os Coen zombando de Deus, ou brincando de Deus, tendo ao seu lado um jogo de manipulação cósmica? Qual é a diferença?
Os enigmas filosóficos de UM HOMEM SÉRIO podem ser encarados apenas por brincadeira, mas esconde uma profunda ansiedade sob suas piadas, e apesar do filme ser escrito e estruturado como uma farsa, é fotografado (por Roger Deakins), musicado (por Carter Burwell) e editado (pelos Coen) como um filme de terror.
Tudo o que acontece com Larry assume um tom sinistro. Um estudante (David Kang) protesta uma nota “injusta” e tenta suborná-lo. Alguém quer manchar seu bom nome através de cartas anônimas, enquanto o Columbia Record Club apimenta sua vida com telefonemas sombrios. Há, ainda, seu irmão, Arthur (Richard Kind), que se mudou para sua casa para trabalhar em um transloucada equação matemática que irá desvendar os segredos do cosmos. E nessa casa há uma guerra entre seus filhos, má recepção na televisão e, de repente, problemas no casamento.
Esqueça a sinopse, no entanto. UM HOMEM SÉRIO, assim como ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ e QUEIME DEPOIS DE LER, é basicamente um filme “mundo cão”, embora terrivelmente mais engraçado. E também mais grave. Os detalhes são locais, e no final, incidentais. O filme é, como sua fonte bíblica, um relato destilado e hiperbólico da condição humana. O arremate é um pouco diferente, mas você sabe a piada. E é sobre você, é claro.
UM HOMEM SÉRIO foi classificado nos EUA sob tarja R (Menores de 17 anos requerem acompanhamento dos pais). Contém uso de drogas, violência e fere os Mandamentos 3, 5 e de 7 a 10.
Spoiler Rating: 86
LBC Rating: ~
Por A.O.Scott (The New York Times)

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Vinícius P.
Um dos filmes pelos quais fiquei muito satisfeito com o reconhecimento na temporada de premiações. “Um Homem Sério” é mais outro belo exemplar do cinema dos Coen, talvez o meu preferido deles entre seus últimos trabalhos.
Feb 20th, 2010
Reply to “Um Homem Sério”