O cinema é arte, mas há arte fora do cinema também… E é daí que surge Steve McQueen, 39 anos, britânico, artista contemporâneo, Prêmio Turner 1999. Buscando novas concepções de arte, ele estréia FOME (HUNGER), filme de abertura da seção “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes em 2008.

Se evocarmos Irlanda do Norte, anos 80, IRA, o ativista Bobby Sands em greve de fome na prisão de Maze para reconhecimento do estatuto de prisioneiro político, logo pensamos em Neil Jordan, em Ken Loach, num realismo britânico politicamente engajado. Pensa-se nisso, no gênero ficção de época, cinema de denúncia, mas não se pensa em Steve McQueen – o artista plástico – não aquele de FUGINDO DO INFERNO (1963).

Com Steve McQueen, artista cujo trabalho, na verdade, parte do olhar do mundo à sua volta, o realismo é uma questão de corpos, pele, dejetos e odores da vida na prisão, olhados por uma lupa, mas tão de perto que se torna abstração e se torna outra coisa…

A tela é uma hipótese de reflexão que se enche com ecos dos dias de hoje, aqueles que não conseguem deixar de ser chamados “pós-11 de Setembro”. E as perguntas são: Quando não se tem mais nada a não ser o corpo, o que fazer com ele quando se acredita numa causa? O que é ser mártir? Até onde o corpo agüenta e até onde a moral deixa que o levemos?

E HUNGER seria paradoxal se este efeito não fosse procurado pelo próprio filme: Por mais marcante que tenha sido, na memória do jovem McQueen, as notícias e imagens televisivas sobre Bobby Sands; Por mais meticuloso que o filme seja na compilação de informação e recriação dos corredores de Maze naqueles anos de chumbo, o IRA e Sands acabam se tornando uma experiência “ao vivo”, entre espectador e filme.

Com a colisão de corpos, o abuso de seus limites, se produz uma experiência sensorial tão estonteante – a orgia de violência entre guardas e prisioneiros, cujo próprio corpo é uma arma – que reduz a platéia, atordoada e exausta, a um ponto zero a partir do qual se abre o percurso da reflexão.

FOME é algo que veio “de fora do cinema”. É uma autoconsciência que está sempre adormecida ou escondida na ficção convencional.

Spoiler Rating: 75
LBC Rating: ~

This entry was posted on Thursday, March 18th, 2010 at 8:34 am.
Categories: FILMES.

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