O Mundo Subterrâneo faz parte da Terra, mas se encontra em algum lugar abaixo do nosso mundo. A única maneira de chegar lá é caindo na toca de um coelho. Seria a mesma terra fantástica que Alice visitou quando criança, mas ela entendeu mal e pensou que haviam dito “País das Maravilhas”. Alice, agora com 19 anos, volta à toca do coelho e, embora não tenha lembrado suas antigas aventuras, volta a se reunir com os habitantes do lugar, incluindo o destemido Dormidongo, o aloprado Chapeleiro Maluco, o Gato Risonho, a Lagarta Absolem, a bela Rainha Branca e sua malvada irmã mais velha, a Rainha de Copas. O tempo passou e agora a Rainha Vermelha controla tudo. É ela quem manda e, por isso, o povo do Mundo Subterrâneo precisa de Alice. O lugar enfrenta um período difícil com esse reinado de terror. Porém, é de fato uma terra maravilhosa, o que talvez explique o motivo pelo qual a menina que pensou que aquele mundo se chamasse País das Maravilhas tenha sido convocada para ajudar a trazer de volta à glória do lugar.

E é nesse universo extraordinário, o popular conto de Lewis Caroll, que Tim Burton, em parceria com Johhny Depp, uma inovadora tecnologia 3D e a magia característica dos estúdios Disney, projeta seu típico visual gótico com alguns dos personagens mais carismáticos da história literária. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é, enfim, o melhor desse cineasta, mas sublinha também algumas de suas deficiências recorrentes, manifesta em quase todos os filmes que já fez: O envolvimento emocional irrelevante e uma estrutura fragmentada. Sendo um mestre no conjunto visual, Burton, não se importa muito com os argumentos, não é um contador de histórias no sentido convencional do termo e, portanto, há quase sempre um hiato entre o visual surpreendente e o nível dramático de seus filmes. É assim também com ALICE.

Há muito que louvar também… Burton soube captar as maravilhas dos contos originais, “Alice no País das Maravilhas (1865) e “Alice no País dos Espelhos” (1871), de forma inigualável. Uma das razões pela qual os personagens de Carroll funcionam tão bem no cinema é porque eles são descontroladamente malucos e há diferentes – várias – formas de interpretá-los. Um fator que o cineasta usou a seu favor.

Usando uma artimanha corajosa de roteiro, escrito por Linda Woolverton (A BELA E A FERA, O REI LEÃO, MULAN), a fábula flerta com uma Alice crescida às voltas com sua Wonderland (agora Underland – um pequeno joguinho de palavras). O truque (admirável, mas não tão bem sucedido) serve para mudar os protagonistas originais. Alice é coadjuvante aqui. Interpretada pela novata Mia Wasikowska, uma atriz de encantos e talentos Gwyneth Paltrownianos, seu personagem cede espaço para o carismático Chapeleiro Maluco.

O personagem de Depp é o mais forte do filme e também o mais emocionalmente tocante. Outrora orgulhoso chapeleiro da Rainha Branca, ele foi envenenado por mercúrio, um triste efeito colateral do processo de fazer chapéus, e não se sente muito bem. Nada bem, aliás… Depp interpreta esse excêntrico com excelência, uma vítima trágica de um passado que pesa sobre o seu presente. Ele não demonstra suas emoções abertamente – sua mudança de humor se reflete literalmente em seu rosto e em suas roupas. Ansioso pelo retorno de Alice é, sem dúvida, seu único amigo de verdade – o único que realmente acredita nela. Uma pessoa destemida que ultrapassa limites para protegê-la mesmo pondo sua vida em risco.

E outros personagens fazem parte dessa muvuca: Helena Bonham Carter impressiona com sua caracterização de Rainha de Copas: Com sua enorme cabeça, temperamento feroz e propensão para gritar “Cortem a cabeça”, ela governa seu mundo com o cetro do medo. Sua irmã caçula, A rainha Branca (Anne Hathaway) é mais gentil e doce. Um pouco sombria também, mas igualmente psicótica. Já os personagens de CGI impressionam pelo elenco: Crispin Glover (Valete de Copas), Alan Rickman (Lagarta Absolem), Michael Sheen (Coelho Branco), Matt Lucas (Tweedledee & Tweedledum), Stephen Fry (Gato de Cheshire), Christopher Lee (Jabberwock), Barbara Windsor (Dormindongo), Paul Whitehouse (Lebre de Março), Timothy Spall (Bayard, o Cão) e Michael Gough (Pássaro Dodô).

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (re)cria em cada cena, em cada personagem, um passeio fantasmagórico pela mente de Tim Burton, empacotada pela visão perfeita do mundo Disney. É um passeio épico, fantasioso que desata em uma batalha de cartas, muitas vezes vista no cinema e jamais vista no livro. É, enfim, um filme comercial, entretenimento de Hollywood disfarçado de passeio gótico e humor alucinógeno, mas é um passeio maravilhoso, à moda dos filmes de Tim Burton.

Spoiler Rating: 80
LBC Rating: ~

This entry was posted on Thursday, April 22nd, 2010 at 10:23 am.
Categories: FILMES.

3 Comments, Comment or Ping

  1. Eu perdi muita da expectativa que tinha em relação a este filme. Agora, a única coisa que quero e espero é ser levada pela história.

  2. Bruno

    O que você quis dizer com ” uma atriz de encantos e talentos Gwyneth Paltrownianos ”?

  3. Maurício

    Siginifica que ambas as atrizes (Mia Wasikowska e Gwyneth Paltrow) possuem o mesmo atributo físico, perfil e talento. Ou seja, é como se fosse uma salada de chuchu sem tempero.

Reply to “Alice no País das Maravilhas (2010)”


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