Segundo Octávio Paz, o sonho é explosivo. Estala. Volta a ser sol. O sonho é o privilégio do homem prisioneiro que dentro de tua gaiola, tem o poder de explodir um mundo inteiro. O sonho é libertador. É liberdade. Portanto, é natural que o cinema seja também uma expressão do sonho. E se os filmes são partículas de ilusão, então Christopher Nolan é certamente um dos sonhadores mais geniosos de Hollywood.
A ORIGEM é definitivamente sua obra prima. Um thriller surrealista, uma incursão junguiana pelos labirintos do inconsciente, pelas imagens, pelas fusões de tempo e espaço que se retraem e distendem-se à vontade. Soberbo. Inteligente. Um tour de force pelas armadilhas do cérebro. Um espetáculo sedimentado em camadas de (des)realidade.
Um filme eficaz em técnica e ambição contado por um cineasta que sempre se aventura – sempre se aventurou – pelo limite da arte. Seja a narrativa/tempo visto em AMNÉSIA, o conceito irreal/real visto em O GRANDE TRUQUE ou até mesmo a ordem/caos visto em O CAVALEIRO DAS TREVAS. Sim, foi ousado. Até mesmo arriscado, mas A ORIGEM supera tudo que Nolan já fez.
Porque A ORIGEM é um filme para ver e rever e rever e rever. Um historia cerebral construída em imagens e detalhes e minúcias e paisagens e diálogos. Símbolos e signos em replay infinito que constituem um trilha de migalhas para a compreensão do argumento.
Nosso guia para este mundo é Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), um “extrator” pago para invadir os sonhos de vários titãs da indústria para roubar-lhes segredos industriais. Cobb saqueia a psique com habilidade praticada, embora cada vez mais assombrado pela memória de sua falecida esposa, Mal (Marion Cotillard), que tem o mau hábito de aparecer em seu subconsciente e causar estragos em suas missões.
É inebriante.
Um filme visualmente desenfreado, filmado em quatro continentes diferentes, em diversas locações do Canadá, Los Angeles, Paris, Tóquio, Marrocos. Tudo montado com efeitos visuais da velha escola e turbinado com a música de Hans Zimmer que trabalha a urgência com um fervor operístico: Trombetas e guitarras pontuadas com sons naturais. Música exótica – quase épica – se confundindo com os mistérios da mente (e do roteiro).
A ORIGEM é, enfim, um enigma metafísico. Uma metáfora do (bom) cinema. Como disse Ana Maria Bahiana, não é pouca coisa. É o que os surrealistas sonharam; O que Buñuel propôs ao cortar o olho e Cocteau imaginou ao colocar a Bela no palácio da Fera. É a possibilidade da narrativa ser a história, do continente ser o conteúdo. A encruzilhada onde filme e sonho se encontram mais perfeitamente.
Spoiler Rating: 100
LBC Rating: ~

3 Comments, Comment or Ping
Kamila
Hum, Christopher Nolan arrasando de novo??
Jul 7th, 2010
Vinícius P.
Já era de se esperar que um diretor que não errou até o momento entregasse um grande filme, mas fiquei surpreso com sua cotação. Será que tem chances no próximo Oscar? Tomara!
Jul 7th, 2010
Wanderley Teixeira
Estou salivando por esse filme! DiCaprio e Cotillard são meus atuais queridinhos e Nolan pode fazer qualquer coisa depois de O Cavaleiro das Trevas q confio de olhos fechados. Promete muito! Sinto um pouco de Kubrick, um pouco dos Wachowski no primeiro Matrix…
Jul 8th, 2010
Reply to “A Origem”