Com O BEM AMADO, Guel Arraes reescreve Dia Gomes em cinema de cordel. Recria Sucupira com pompa e circunstância, fanfarra e paratibum. É a festa da democracia. O pão. O circo. Na tela o povo está contente. Fora dela, o público ri.
É, afinal, a farsa – o burlesco – que o Brasil gosta, que o Brasil escarnece: A fábula de Odorico Paraguaçu, o prefeito amalufado dos confins de um agreste de fartura. Vivendo – Recriando – um faroeste caboclo contado em prosopopéia.
E pela boca do saudoso político, desfilam um contingente de lero-lero, fala mansa e papo furado. Cinema de sotaque, de prosa fiada onde os sufixos – os -oides, os -istas, os -escos, os – mentes – bailam e adocicam os ouvidos do povo. Povo caricato. Cartunesco. Povo de Neco Pedreira, de Zeca Diabo, de Irmãs Cajazeira, de Dirceu Borboleta e Chico Moleza.
Povo que gravita em torno do astro-rei: Seu Odorico Paraguaçu. Um Marco Nannini que adula, cascateia, proclama, borboleteia, rodopia, discursa, aclama, glorifica, apregoa, lisonjeia, bajula… E o povo vai às alturas com tais promessas de etecetera. Nannini brilha, gira, sorri, gira mais uma vez, então recita outra sereia de texto. O povo hip-no-ti-za-do incha de patriotismo.
E então se constrói os elefantes brancos… O cemitério municipal de muros caiados, paróquia monumental e covas superfaturadas. Cemitério que jamais é inaugurado por falta de defunto. É o drama de Odorico. A charanga da Trombeta da oposição.
No jingle de Sucupira, Arraes filma um vaudeville caipira repleto de cor, de vida, de rococó. De encontros e desencontros. De dinheiro que vai. Dinheiro que vêm. Dinheiro público, aliás. Público que não vê que o povo está encantado com seu pão. Com seu circo.
Spoiler Rating: 76
LBC Rating: ~

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Hudson Cunha
Gostei do filme, mas o visual realmente incomoda. A montagem é muito rápida e as cores são histriônicas. No entanto me encantei com a interpretação de Nanini e seu “bi-vocabular”…
Jul 29th, 2010
Reply to “O Bem Amado”