
ZONA SUL (SUTHERN DISTRICT/ZONA SUR) se cerca de meditação visual para contar um melodrama familiar e, consequentemente, um documentário social. O trabalho visual é específico, repleto de planos visuais longos, pacientes, cuidadosamente compostos com panorâmicas circulares. Vê-se pouco, mas se expressa muito.
O roteiro é um fiapo de historia. A narrativa é quase inexistente. O boliviano Juan Carlos Valdivia nos conta (nos mostra) a decadência de uma família proeminente. Seus empregados – dois indígenas Aymaran – acompanham essa queda livre, indiferentes. A câmera também: Prefere filmar os quartos, os pátios, as casas ao invés dos atores que falam, conversam, discutem sempre fora de cena.
E assim, Valdivia se veste de ANJO EXTERMINADOR para manter a família cativeiro da própria casa. Escravos do passado contemplando o vazio pela janela do lar. Eles não saem. Não precisam sair. Estão presos ao seu declínio burguês entre quatro paredes.
Há implicações políticas aqui. A Bolívia elegeu seu primeiro presidente Aymaran. O poder transita em um país em ebulição. Houve uma inversão de classes. Mudança retratada – com muita sutileza – pelo confronto de cores frias (da família) e quentes (dos Aymaran).
Alheio a tudo, existe o caçula da família. Um menino de seis anos – o único a sair de casa. O único a contemplar seu país além da janela. Um símbolo da esperança desatento às questões de raça e dinheiro. O menino é o futuro. Sua família é o passado.
ZONA SUL é o retrato de uma família – de um bairro – em um país que muda. Um país até então ignorado, visto de baixo. Um filme ousado, formalista, plenamente autoral que pode seduzir ou repelir o publico com seus longos planos em 360°. Uma “experiência” de forma e conteúdo com peso e preocupação.
Spoiler Rating: 77
LBC Rating: ~

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