

Portugal, França, Espanha e Brasil se uniram pelO ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, o novo filme do centenário cineasta português Manoel de Oliveira, uma história de amor metafísico envolta por fantasmas do salazarismo.
Passado na década de 50, o filme conta a historia de um fotógrafo, subitamente acordado no meio da noite para fotografar uma linda moça que acabara de falecer pouco antes de se casar. O fotógrafo que está na região do Douro para documentar antigos métodos de trabalho nas vinhas, fica subitamente perturbado pela imagem da falecida. Perturbado porque no momento de fotografá-la, através da lente de sua máquina, a jovem parece regressar à vida, unicamente para ele, e então ele se apaixona. Desse momento em diante, Angelica o assombra até a exaustão…
Mas é um fantasma diferente… Angelica desprende-se do seu corpo e o liberta com um sorriso de Monalisa. Um sorriso que lhe faz feliz e o livra de todos os seus traumas. É um anjo? Um espírito? Uma alma penada? Um dybbuk? Não importa… Todas as religiões vivem em harmonia sob o teto decorado da casa de Angélica. Um teto repleto de pombas (O Espírito Santo), mas também um teto judaico na forma de estrela. Ou seja, a relação entre católicos e judeus não é tão antagônica, segundo Oliveira. São até harmonicas…
Passado e presente também coexistem… O ambiente é provincial – old-fashioned -, com personagens usando roupas dos anos 50 e o ambiente social nos remetendo de volta a esse período também. Mas o resto indica o presente. A reflexão indica um agora que não deixa de ser certo deleite – anacrônico, sim, mas típico do cineasta.
O próprio Manoel de Oliveira escreveu o roteiro em 1947, influenciado por suas perturbações contra os crimes de Hitler e do regime nazifascista. Só que o projeto teve de ser arquivado, censurado pela ditadura de Salazar. Cinquenta anos depois, o projeto foi revitalizado e finalmente filmado.
E que sorte! O papel da jovem foi confiado à revelação espanhola Pilar López de Ayala que se projetou em 2007 com EL LA CIUDAD DE SYLVIA, de José Luis Guerín. O fotógrafo é interpretado por Ricardo Trepa, o mesmo de SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA.
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA é um conto de amor abstrato e absoluto. Uma ode ao antagonismo. O próprio fato de Angelica sorrir é um extremo ato de antagonismo. E é isso que incomoda – A vida diante da morte. O antagonismo representado pelos coveiros apesar de seu canto alegre. E é esse confronto, que Manuel de Oliveira, aos 101 anos, nos apresenta. Como o próprio mestre diz: “Eu presumo saber um pouco da vida, mas nada sei da morte. Nunca tentei. Ninguém tenta. Portanto, é um enigma: Não sabemos nada!”
Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

No Comments, Comment or Ping
Reply to “O Estranho Caso de Angélica”