
Em uma cena de NOSSA VIDA (LA NOSTRA VITA), de Daniele Luchetti, o jovem romeno Andrei diz ao protagonista italiano Claudio: “As coisas não se resolvem com dinheiro”. Curioso que o cineasta havia declarado em Cannes que a intenção dos roteiristas (o próprio diretor junto com Sandro Petraglia e Stefano Rulli) era justamente evitar mensagens políticas ou sociais. Mas ao escrevê-lo e filmá-lo moldou um filme que evoca a cultura das aparências, do bem-estar a qualquer custo que infecta as pessoas como uma febre.
E descreve o mundo da construção civil, como um universo de subcontratos de negros e trabalhadores ilegais, construindo seu sonho de emigração em castelos de areia e material de pouca – ou nenhuma – qualidade. Esse é o universo de Claudio, interpretado por um passional (como de costume), Elio Germano, cuja vida se resume em fazer filhos e ver televisão. Ele não tem emprego fixo, vive de empreiteiro, ama sua esposa, grávida de sua terceira criança.
E então a verdadeira tragédia: A mulher morre durante o parto e Claudio experimenta a tragédia como se fosse uma injustiça. Resolve enfrentá-la com cinismo e, assim, após a descoberta do corpo de um guarda romeno no prédio onde trabalha, morto em acidente, ele, ao invés de interromper o trabalho e enviar para casa os 50 empregados (a maioria ilegais), chantageia o chefe para terceirizar a construção de outro predio.
O sentimento de culpa leva Claudio a ajudar a esposa do falecido, levar seu filho para trabalhar com ele e, inclusive, hospedá-lo em sua casa. Claudio, na verdade, não é um tipo duro. Tão pouco um criminoso. Seus irmãos – um guarda romântico e ingênuo, a outra, empregada em uma agencia de seguros – são por sua parte, pessoas adoráveis que sentem afeto e ternura pela “ovelha negra” da família, agora viúvo e com três filhos para criar.
Luchetti filma com a câmera na mão (e no coração) para capturar o close-up dessa família em tom de documentário. Escala um elenco que inclui gente anônima que não ascende ao escalão de personagem e conta com grandeza (sendo um pequeno filme) a capacidade de deslumbramento (e aí é destemido). O resultado é um sentido de melodrama e comédia (e até de musical) de que a cinema italiano não é capaz há décadas.
Spoiler Rating: 71
LBC Rating: ~

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