
Inteligente e muito respeitoso com seu protagonista, HOWL é uma admirável exploração acadêmica sobre as origens, impacto, significado e legado da obra do poeta Allen Ginsberg. É também um híbrido intrigante de documentário, narrativa e animação.
Um cinema que precisava de ruptura de gênero para expressar tudo o que têm em mente. Aventureiro, mas um tanto formalizado, tem perspectiva de sucesso entre o público intelectual e gay, mas, por natureza, é um projeto rarefeito demais para o público em geral. Afinal, quantos filmes já tiveram a ousadia de construir cenas em torno de longos trechos de poesia, lido aos ouvintes ansiosos, cujas reações entusiasmadas são registradas em pormenores? Pois é aqui que os veteranos Rob Epstein e Jeffrey Friedman alicerçam um trabalho em torno de Ginsberg (James Franco), diante de uma multidão beatnik na San Francisco’s Six Gallery, em 1955, para ler “Howl” pela primeira vez. Mesmo que as palavras francamente sexuais e provocantes do poeta não choquem mais depois de 55 anos, a cena é um deleite em cada palavra.
Para examinar os impulsos que causaram cada parágrafo escrito, os cineastas expandiram seu trabalho em quatro eixos: Primeiro com enxertos estilo verité de uma “entrevista” com Ginsberg (com texto elaborado de várias entrevistas reais que o mesmo deu ao longo dos anos); em segundo lugar, com sequências animadas elaboradas pelo ex-ilustrador Ginsberg Eric Drooker que tentam, com graus variados de sucesso, traduzir as palavras em imagens em movimento; em terceiro lugar, com uma dramática (re)criação do julgamento de 1957, em que a promotoria tentou banir o livro por julgá-lo obsceno e sem mérito artístico e, por fim, com interpretações de “momentos-chave” da vida do jovem Ginsberg, principalmente suas interações, carnais entre outras, com superstars da Geração Beat, tais como Jack Kerouac, Neal Cassady, e seu companheiro de longa data, Peter Orlovsky.
Na entrevista, Ginsberg admite, entre outras coisas, o medo pelo seu pai-professor, a loucura de sua mãe, suas paixões sexuais, sua psicologia inspirada no fato de viver uma vida plenamente honesta e sua opinião de que “Howl” não foi, como alguns perceberam, uma promoção da homossexualidade, mas simplesmente um argumento franco. É nesses pensamentos – interlúdios secos – que Franco mais se aproxima de seu personagem, o que ele faz com grande credibilidade, apesar da semelhança física não ser tão plausível, já que o verdadeiro Ginsberg era mais gordo, careca e desgrenhado.
O julgamento é feito sem histrionismo e com especial atenção a quão desconfortável estava o promotor (David Strathairn) em recitar o poema em tribunal. Um desfile de celebridades (Jeff Daniels, Mary-Louise Parker, Treat Williams, Alessandro Nivola) faz um retrato esperto das testemunhas, enquanto Jon Hamm, sem se descolar muito de “Mad Men”, interpreta o advogado de defesa que habilmente dirige o processo julgado pelo conservador e imparcial juiz (Bob Balaban).
Trechos de momentos íntimos de Ginsberg com seus companheiros literários, bem como sua tentativa de viver uma “vida correta”, são pouco mais do que isso, silenciosos e fugazes, memórias em preto-e-branco de amores conquistados, devassidões consumadas ou não, e busca de aceitação. Houve certamente muito mais no passado de Ginsberg do que foi citado em HOWL, mas o filme preferiu não adentrar por aspectos mais sórdidos, preferindo celebrar a força da vida encarnada pelo poeta e seu trabalho.
HOWL é basicamente uma biografia bem filmada, extremamente informativa e histórica, e esse é seu principal defeito. Diante de um personagem tão rico e “vivo”, faltou um pouco de vigor em expô-lo. Nada grave, mas um pouco vazio.
Spoiler Rating: 74
LBC Rating: ~

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