Os melhores filmes de boxe não são propriamente sobre o esporte em si, mas sobre o que acontece fora dos ringues. O VENCEDOR (THE FIGHTER) fica no meio termo, tanto em gênero quanto em tema. É drama. É comédia. É boxe. É família. Um retrato paternalista do diretor sobre o lendário Micky Ward (Mark Wahlberg) e seu meio-irmão Dicky Eklund (Christian Bale).

Talvez seja o projeto mais amplo, caótico e difuso do diretor, curiosamente o mais comercial. Um filme estruturalmente confuso, quem sabe um reflexo do fato de Russell, que costuma escrever seus próprios roteiros, não o tenha feito dessa vez (A tarefa coube a Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson). O próprio filme tem uma historia turbulenta: Passou de mão em mão, de Darren Aronofsky a Brad Pitt e o resultado é um time de cerca de 15 produtores associados.

Como filme de boxe, não acrescenta muito ao gênero. No tom, na ideologia, e na qualidade artística, está mais próximo do popular ROCKY, UM LUTADOR com um leve toque de Jim Sheridan (O LUTADOR).

Wahlberg é um ator convincente nas luvas de Mick, mas é Melissa Leo e Christian Bale, que reclamam (e roubam) cada cena. Ambos são atores camaleônicos que se transformam, tanto física como mentalmente, para seus papeis. O resultado é hipnótico. Bale, um ator naturalmente bonito, está irreconhecível, perdeu uma quantidade significativa de peso e aprumou o conjunto de seu personagem com diferentes gestos e maneirismos.

É ele que rouba o chão de Mick desde o início. O ponto de projeção, o irmão, o ídolo e, enfim, o treinador do protagonista. Um problema também… Dick, outrora considerado o “novo Sugar Ray Leonard”, caiu em desgraça. É viciado em drogas e o roteiro aborda – nas entrelinhas – o conflito, o ressentimento e o relacionamento entre esses dois irmãos, lutadores e concorrentes pela atenção da mãe, encarnada com veracidade por Melissa Leo.

E assim caminha a narrativa, ora entre a caótica arena profissional (o ringue, o ginásio), ora entre a bagunçada vida pessoal e familiar desses dois irmãos, que vivem ainda com outras sete irmãs, todas excêntricas e lunáticas. Um enxame de harpias onipresentes em cada ocasião da cena familiar. A importância dos laços familiares ressaltados em cada ponto, mesmo que sejam um pouco disfuncionais e contra-produtivos.

Em seus bons momentos, O VENCEDOR é um filme corajoso, carinhoso, bem humorado, remexendo o baú à procura de velhas histórias de heróis improváveis a procura de seus sonhos, mas falta um pouco de alma na direção, um foco para separá-las e alinhavá-las para torná-lo um grande retrato do gênero, enfim uma elegia da classe trabalhadora americana.

Spoiler Rating: 78
LBC Rating: ~

This entry was posted on Friday, February 4th, 2011 at 9:35 am.
Categories: FILMES.

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  1. HIGOR

    Classificação: ****1/2 (4 estrelas e meia)

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