
Depois dA FLOR DO MEU SEGREDO, Pedro Almodóvar foi gradualmente abandonando a frivolidade que era sua marca registrada para lidar com considerações mais graves (TUDO SOBRE MINHA MÃE), pessoais (MÁ EDUCAÇÃO) e dramáticas (VOLVER). São melodramas que os espanhóis chamam de “Almodrama” e que poderia desapontar aqueles que pensavam que ele tinha perdido sua “joie de vivre” vista EM CARNE E OSSO (1997), um de seus melhores filmes.
A boa notícia é que A PELE QUE HABITO (LA PIEL QUE HABITO), que parece simples, porque é bem contado e rápido, lhe permite recuperar a força que o inspirou nos anos 80/90, com suas obsessões torcidas, seus personagens coloridos e gráficos complicados. Ainda pode ser visto como um melodrama, mas no sentido literal de sua essência: Fazer do provável, improvável. Na realidade é um thriller que flerta com o terror, o noir, a ficção-cientifica, o próprio drama e, por fim, com a comédia enquanto ultima expressão do trágico.
De novo, o cineasta navega entre esses gêneros sem medo, com os olhos abertos, e voltando-se, vez ou outra, para o código genético de sua filmografia. E eis a historia de um Frankenstein tragicômico, um cientista louco empenhado em vingar a morte de sua filha e, ao mesmo tempo, o retrato de uma obsessão doentia. Adaptando seu enredo de um romance de Thierry Jonquet Tarantula, Almodóvar constrói a metamorfose da vingança em um intricado labirinto de reviravoltas dramáticas, mais ou menos imprevisíveis (e, digamos, um pouco malignas). É, enfim, uma hábil gestão do suspense e do tempo, com a história mudando o jogo, as máscaras caindo e os papéis sendo borrados: Que se vinga de quem? Quem é a vítima? O que ele vai vingar, uma vez saciado?
É revigorante, especialmente depois de um filme como ABRAÇOS PARTIDOS, que parecia anunciar o crepúsculo de seus filmes. É talvez também porque ele encontrou dois de seus atores favoritos: Antonio Banderas, com quem não filmava desde ATA-ME (1991) e Marisa Paredes.
De LOS OJOS SIN ROSTRO, FRANKESNSTEIN, UM CORPO QUE CAI e até mesmo de Fritz Lang habitam a pele desse novo Almodóvar. Referencias impensáveis diante desse professor de cinema de La Mancha, mas cujo resultado, imaginativo e alegre, seduz justamente por essa fluidez e, sem digressões desnecessárias, se entrega com paixão sem um pingo de tédio do que reclamar.
Spoiler Rating: 79
LBC Rating: ~

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