A história narra uma expedição pelos estepes da Turquia. A polícia algemou dois suspeitos e os leva em busca do lugar onde enterraram o corpo do homem morto. O Sol está se pondo, mas a coluna de três veículos, com doze pessoas a bordo, continua pelas pequenas estradas da montanha. O problema: os criminosos não se lembram do local exato e o comboio está perdido nas profundezas da Anatólia.

Assim começa uma cerimônia absurda: O comboio para em algum lugar e todos os policiais, soldados, advogados, médicos e motoristas saem de seus veículos, tateando e abanando a cabeça em sinal de confusão. E assim é o filme inteiro, uma dúzia de vezes. Nada acontece. A tela é condenada a permanecer como playground de meros vestígios de luzes brilhantes na noite anatolense.

Depois de 45 minutos, sopra um vento. Como entretenimento, o médico conta uma história que dura 30 segundos. O comboio prossegue em estradas sinuosas e intermináveis e, depois para em uma aldeia para comer. Nada mais. Depois de 90 minutos, o sol nasce pela primeira vez, um pouco de música faz a sua aparição. A face escura do suspeito número um enche a tela. Alguns minutos mais longos da paciência para o eureka de Nuri Bilge Ceylan: “Nós o encontramos!”, mas ainda não estamos fora de perigo.

Diante de nossos olhos, o procurador prepara seu relatório completamente desinteressante. E vemos a autopsia, as looongas descrições dos legistas sobre a cor da camisa, tamanho do corpo, cérebro e miolos e assim prossegue por mais 57 minutos com algumas aventuras menores que servem como pontos de referência.

É depois do filme que a magia acontece diante da consciência plenamente adormecida. Na tela, Nuri Bilge Ceylan amplia o tempo. Ele não fez um filme, mas 157 minutos de corrida. O mesmo argumento que levaria 5 minutos filmados com outro diretor qualquer, mas não com Ceylan… Seu verdadeiro filme começa depois da exibição. É muito difícil e doloroso de assistir. Leva tempo para perceber o quão bonito é. A cena da autópsia não é realizada no corpo do falecido, mas no filme vivo. Disfarçado pela sequencia da estrada, pela frívola filosofia, pelos planos longos, o cineasta faz a autopsia de seu próprio filme, dissecando cada quadro, cada fotograma em luz e trevas. ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA (ONCE UPON A TIME IN ANATÓLIA) é um desafio (Uma tese de cinema? Sobre cinema?), mas de uma beleza absoluta. Aos heróis que se aventurarem por essas estradas, boa noite e boa sorte!

Spoiler Rating: 72
LBC Rating: ~

This entry was posted on Friday, October 21st, 2011 at 8:39 am.
Categories: SPOILERS.

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