
O cenário poderia ser um corredor qualquer de um hotel qualquer: Uma mulher seminua nos mostra a natureza do lugar, um bordel parisiense de 1897. Ela recebe um cliente de terno e gravata e fala de seus sonhos manchados de esperma e lágrimas. Ele coloca uma caixa de presente diante dela. Um anel. “É um pedido?” Ele sequer se despe e faz amor com ela. Depois pergunta: “Posso ligar?” Ela responde: “Sim” e a mulher tragicamente sorri.
E assim Bertrand Bonello coloca as prostitutas do bordel Apollonides no centro de sua narrativa. Os rostos lindos, as roupas bonitas, os corpos frágeis… As alusões à pintura são inúmeras: “La Grande Odalisque” de Ingres, “L’origine du Monde” de Courbet e todo o impressionismo de Renoir, Manet e Monet. O filme mais parece uma pintura repleta de imagens em movimento.
O bordel é governado com mão de ferro. O regulamento é rigoroso. A liberdade é escassa. A punição máxima é a gravidez ou a doença declarada pela verificação obrigatória dos médicos que regulam a carne fresca do estabelecimento. Toda garota sonha em pagar suas dívidas e tem um apelido e um adorno: La Jolie tem uma tatuagem nas coxas, La Petite tem rosas vermelhas em seu cabelo… E todas riem. A idéia dessa mulher que ri é emprestada de Victor Hugo: Em seu filme mudo, O HOMEM QUE RI, ele narra o destino de um homem a quem todos pensam que sorri, mas na verdade foi mutilado.
E o que Bonello exibe é a ferida dessas prostitutas de uma forma tão inútil quanto traumática para o bem e para o mal. Filma a asfixia do fim de um século diante de meninas “alegres” com suas flores murchas, capturando os olhos tristes dessas princesas que vendem seus corpos autômatos, o desejo exausto, secretamente esperando um príncipe encantado. E, assim, o diretor sonda a química dos encontros, o risco de se render ao outro e os perigos para se encontrar.
OS AMORES DA CASA DE TOLERÂNCIA é um retrato encharcado em melancolia, decadência e topless. Tudo tão contado, conhecido, lido, mas pouco visto. O roteiro é um fiapo: É basicamente o ecossistema de um bordel em funcionamento pontuado por silêncios, percussão e canções de Françoise Hardy, Elliot Murphy, De Palmas ou Daniel Darc.
Spoiler Rating: 69
LBC Rating: ~

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