“A expressão de Kevin era tranquila. Ainda exibia uns restos de determinação, mas já deslizava para uma empáfia arrogante e serena de um trabalho bem feito. Os olhos dele estavam estranhamente desanuviados – imperturbados quase pachorrentos – e, reconheci a transparência daquela manhã (…) Aquele era o filho estranho, o menino que largara um disfarce vulgar e evasivo e o trocara pelo porte de chumbo e pela lucidez do homem que tem uma missão”


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN) é a gênese de um monstro, seja ele adolescente, psicopata, ou demônio. É o vórtice de Lynne Ramsay em busca dos porquês do mal, sutilmente enraizado na relação (conturbada) entre a mãe e um filho que se comporta como se fosse o bebê de Rosemary. Em todas as idades, Kevin é um monstro. Um personagem digno de um filme de terror, completamente diferente dos protagonistas de ELEFANTE (Gus Van Sant) e POLYTECHNIQUE (Denis Villeuneve) que terminam no mesmo drama.

Kevin é insalubre, provocante e maquiavélico em tudo o que empreende. Manipula o pai indiferente (John C. Reilly) para isolar a mãe num crescendo de angústia até o irreparável. É neste aspecto inevitável do filme que se questiona a culpa materna. Eva – a intensa Tilda Swinton – acusa seu fracasso como mãe, quando deveria ter visto todas as circunstâncias da educação permissiva. Daí ser capaz de evitar a tragédia a um passo do final que Lynne Ramsay nos propõe, em nome da questão da aceitação, em nome do amor materno, mesmo em nome da vida, pois afinal, não se pode viver sem ela.

A história começa banhada em vermelho, o sangue simbólico que irá permanecer ao longo de toda a projeção. La Tomatina em Buñol (Valência) é o palco das primeiras impressionantes seqüências, que servem como antítese metáfora do que está por vir. A primeira meia hora é brilhante e perturbadora, depois cai na banalidade, repetindo variações entre a guerra declarada e sofrendo da montagem não-linear tão idolatrada por Iñarritu-Arriaga.

Multiplicando-se o silêncio tácito e pesado, Lynne Ramsay banha sua história trágica em uma piscina, onde é impossível nadar com a cabeça fora da água. Seu filme é opressivo, dividido entre o desejo de fuga e o dever materno, não necessariamente intencional ou desejado. O tom é irremediavelmente insano. De repente, a tela é suspensa por um ódio cancerígeno, onde o personagem de Tilda desce ao inferno, enquanto o pai se afoga nessa manipulação eterna do complexo de Édipo. Para o espectador, não há possibilidade de fugir ou respirar. Apenas sofrer e suportar a dor e a culpa da protagonista, cuja vida dramática não deixa espaço para nuances ou mistério.

WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN impõe o sonho de Lynne Ramsay em voar alto: A estética do horror, os planos, a montagem, a trilha, a mistura venenosa de gêneros… O filme começa forte. Muito forte. Muito alto? Uma vez estabelecido, o padrão é difícil de manter. Todavia, a diretora borra a linha entre filme de gênero (o onírico, o bebê diabólico) e seu filme principal (um verdadeiro estudo psicológico que funciona como um drama intimista intenso) e se impõe, inspirada pela força psicológica de Bergman de um lado e a loucura de Lynch do outro.

Spoiler Rating: 79
LBC Rating: ~

This entry was posted on Friday, January 20th, 2012 at 8:49 am.
Categories: FILMES.

One Comment, Comment or Ping

  1. Fernando C. FOx

    Excelente crítica. Adoro ler aqui, ver o filme e depois reler, faz completo sentido.

    Um dos poucos filmes que dá um soco no estomago e rever alguns conceitos.

    Tilda está intensa, mesmo calada dá gritos.

Reply to “Precisamos Falar sobre o Kevin”


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